sábado, julho 02, 2011

Revista "Cultura Entre Culturas", n.º 3 - Uma Apreciação Crítica



A Revista "Cultura Entre Culturas", publicada pela Âncora Editora, dedicou o seu n.º 3 inteiramente a Fernando Pessoa, com o subtítulo "Pessoa, poeta do nosso desassossego". Das 272 páginas do volume, mais de 150 são dedicadas a Pessoa, com ensaios, poemas e 72 páginas de inéditos.

A revista abre com um editorial muito confuso (e muito mal escrito, na minha opinião), que nos tenta introduzir no tema da revista. Infelizmente não assinado, para que se pudesse atribuir culpas devidas a quem de direito...

Passando aos ensaios propriamente ditos. O volume abre com um estudo de António Cândido Franco que aborda Pascoaes e Pessoa. Muito curioso artigo, que "retoma" algumas questões de que já tínhamos falado a propósito da conferência "Central de Poesia", nomeadamente a recepção da obra de Pessoa nos anos 30,40 e 50. Pascoaes, primeiro um adepto, foi, nos anos 50, um "contra-Pessoano", precursor de certa maneira da atitude de Cesariny (já agora, aproveitamos para lembrar que já era tempo de "O Virgem Negra" ter uma reedição).

O ensaio seguinte é de Paulo Borges e versa sobre a "Mensagem". A primeira novidade é desde logo que o autor prepara um livro sobre a "Mensagem" (tentaremos saber mais sobre ele brevemente). O ensaio é bastante opaco - no sentido de a linguagem utilizada ser iminentemente académica - mas julgo tratar-se de uma interessante abordagem do livro de Pessoa enquanto viagem interior. Segundo Borges, o poema "As ilhas afortunadas" é a chave da leitura da mensagem da Mensagem. Veremos mais tarde, quando surgir o seu livro completo, o inteiro significado desta proposição - mas este ensaio é um início prometedor, embora, como algumas vezes acontece, possa haver o risco de uma leitura exageradamente rebuscada de Pessoa.

Bruno Béu de Carvalho apresenta de seguida um ensaio sobre "Fernando Pessoa e a saudade do presente". Trata-se de um dos ensaios mais bem conseguidos deste volume, falando-nos do lugar da saudade na obra Pessoana. Como bem indica o autor, a palavra "saudade" aparece poucas vezes em Pessoa - e ele próprio parece ter uma atitude anti-saudosista, seja por convicção, seja para quebrar com as correntes clássicas do seu tempo. É interessante pensar a maneira como Pessoa quis transformar a saudade "em-si" numa saudade do presente ou mesmo do futuro. Porventura conseguiu mesmo "enganar" quem o estuda actualmente...

O ensaio seguinte fala dos "35 Sonnets" de Pessoa e é da autoria de António Faria. Nele o autor versa sobre o tempo nestes poemas, partindo de uma afirmação ontológica algo misteriosa.

João Marques Lopes escreve, por seu lado, sobre "Fernando Pessoa - da Mensagem à Elegia na Sombra". Um texto algo crú sobre a maneira como, de certa forma, a "Mensagem" foi um acto falhado de Pessoa, que o levou provavelmente a lamentar ter expresso tão literalmente o seu idealismo perante uma realidade que o decepcionou profundamente.

Os dois ensaios seguintes juntam António Maria Lisboa a Fernando Pessoa. Maria Lisboa foi um surrealista, profundamente influenciado, porém, pelo esoterismo. Raquel Guerra escreve precisamente sobre o surrealismo mítico, enquanto Luis Pires dos Reys reflecte sobre o rumo e a navegação.

Segue-se o caderno de inéditos, que é de enorme interesse, contendo textos nunca antes publicados sobre Omar Khayyam, o Oriente, Vicente Guedes/Bernardo Soares e diversos escritos filosóficos. São 72 páginas obrigatórias para qualquer Pessoano.

Para o final do volume encontramos ainda mais ensaios. Ciprian Valcan escreve sobre "Os sonhos de Bernardo Soares". Curto mas interessante. Julia Dieguez escreve sobre a poética da ausência. Pablo López sobre a metafísica e a loucura em Pessoa. José Almeida reflecte sobre a "Educação do Estóico" (uma obra ainda pouco estudada e este ensaio é muito recomendável). Joaquim Patrício escreve sobre a linguagem e os ensaios Pessoanos terminam com um muito interessante estudo de Inês Borges que coloca lado a lado a arquitectura e a poesia, falando de labirintos.

Em conclusão, recomendamos vivamente que adquiram este número, principalmente (mas não só) pelo valioso caderno de inéditos incluído no mesmo.

Alguns conteúdos desta revista estão disponíveis para leitura aqui, e aqui pode ler-se o elenco total dos conteúdos deste número. Podem adquirir este número da revista nas principais livrarias, ou assinar a mesma através deste número: 213 951 221

Agradecemos a Âncora Editora o envio de um exemplar para análise e divulgação.