quinta-feira, julho 28, 2011

Polémica no Exame de Português do 12.º Ano

O recente exame de Português do 12.º Ano de Escolaridade ficou marcado por uma polémica, sobretudo depois dos resultados mostrarem uma queda abrupta das notas, com uma média negativa de 9,6 (supostamente uma das piores dos últimos anos).

Ora, este exame (versão 1 e 2) traz várias questões relativas a Fernando Pessoa. No grupo I/A há uma análise de um poema de Álvaro de Campos ("Na casa defronte de mim e dos meus sonhos", pode ler-se o poema completo aqui) e uma pergunta de desenvolvimento sobre Ricardo Reis. A polémica surgiu relativamente à análise do poema de Campos, embora, como veremos, haja algumas coisas também a dizer relativamente à parte de Reis... Resta dizer que o grupo I de perguntas equivalia a 100 pontos (de um total de 200), portanto 50% da pontuação total da prova.

Devo dizer desde já que tenho uma posição muito particular perante a análise dos poemas de Pessoa. Aliás, recebo centenas de pedidos no meu site e privilegio sempre análises amplas dos mesmos, em que o aluno/estudante possa interpretar o poema subjectivamente, da forma que o afecta a ele próprio e não seguindo regras interpretativas estritas. Além do mais, acredito que os exegetas vão, quase sempre, para além daquilo que o poeta escreveu, criando quase que outras realidades. Na minha opinião, quase qualquer critério de resposta estaria errado, por ser restritivo.

A Prof.a Teresa Rita Lopes, insígne especialista de Pessoa e em particular de Álvaro de Campos (tem dedicado a este heterónimo inúmeros estudos e edições), prontificou-se a analisar esta questão e, segundo ela, os alunos têm razões de queixa. Chegou mesmo a solidarizar-se com eles, criando uma petição para que as classificações deste exame sejam revistas.

Longe de mim questionar a análise da Prof.a, que no geral me parece correcta. Mas mesmo assim queria deixar algumas palavras, levando em consideração os critérios de resposta ao exame.
  1. A escolha do poema foi infeliz? Penso que há várias resposta possíveis a esta questão. Por um lado é um poema tardio de Campos (2.ª era/3.º momento, seguindo a classificação da Prof.a Rita Lopes) o que implica o conhecimento da evolução do heterónimo. Poderá ser injusto exigir de um aluno do 12.º um conhecimento profundo dessa mesma evolução. Mas - poderemos argumentar - deveriam os examinadores reger-se por critérios de facilitismo, escolhendo por exemplo um poema da fase inicial, "mais linear"? Julgo que não é a dificuldade do próprio poema que, necessariamente, põe em causa a análise por parte de quem o lê.
  2. Na pergunta 1) é pedida a identificação de 2 sensações na 4 primeiras estrofes. Concordo com a Prof.a quando ela diz que o poema não trata essencialmente de sensações, mas sim de sentimentos. Mas - e isto é muito curioso - o próprio Álvaro de Campos não é ensinado no programa de Português muito para além do Álvaro de Campos futurista e sensacionista. É esta superficialidade que atinge o próprio redactor do exame, porque ele provavelmente nem conhece profundamente que o heterónimo teve uma evolução! Para o programa Campos tem 2 fases: Vanguarda e Sensacionismo / Abulia e Tédio... E qual destas fases se incluiria este poema para quem construiu o exame? Fica a questão no ar (mas suspeito que na primeira). Deviamos - na minha opinião - perguntar qual é a formação avançada que é dada aos próprios professores de 12.º relativamente a Pessoa (e quando digo Pessoa, poderia dizer qualquer outro autor Português, como Saramago por exemplo, que também saiu no exame). O programa releva uma grande superficialidade na abordagem a Pessoa, que depois inevitavelmente se observa na formulação das perguntas de exame. Poderemos então exigir uma profundidade que não é exigida, inicialmente, em termos programáticos? É evidente que a casa que o poeta vê não é real - é imaginada - e por isso é quase ridículo pedir que se avaliem sensações, quando o poeta nada vê no imediato em que escreve, mas o examinador ficou-se por esse imediatismo porque ele próprio não foi capaz de ir mais além (por incapacidade formativa de compreender a escrita de Campos nesta fase).
  3. Na pergunta 2) é pedida a caracterização do tempo da infância na 3.ª estrofe. Novamente concordo com a Prof.a quando diz que a pergunta é de uma confrangedora superficialidade. Mas, para ligarmos a imagem da infância à do próprio poeta, seria necessário conhecer a história de Pessoa (e o papel de Campos no revelar dessa história). Mas - há que dizê-lo - o aluno que respondesse poderia sempre ultrapassar essa superficialidade com a sua criatividade pessoal e conhecimento mais profundo da obra em causa.
  4. A pergunta 3) era relativa à relação do sujeito com os "outros" nas primeiras 6 estrofes. O critério de resolução é novamente muito superficial e baseia a diferença do "eu" e dos "outros" apenas na "felicidade". Aqui haveria muito a dizer e a Prof.a cobre todos os pontos na sua excelente análise. Neste ponto poderíamos até concordar que o poema se torna demasiado "pesado" para um aluno do 12.º, que não terá a maturidade psicológica para poder entender esta noção de solipsismo do eu face aos "outros"; ainda mais quando o próprio examinador não mostra sinais dessa mesma maturidade nas suas questões...
  5. Na pergunta 4) o examinador pede uma análise da última estrofe relativamente às 2 imediatamente anteriores a essa. Este é, na minha opinião, o único caso em que o cenário de resposta está mesmo errado e não é, apenas, incompleto. Vale a pena transcrever o cenário para percebermos melhor o que se passou:

    A dor e o vazio expressos na última estrofe, particularmente no verso «Um nada que dói...» (v. 26), decorrem das reflexões desenvolvidas nas duas estrofes anteriores.
    O sujeito poético questiona-se quanto aos «outros» (v. 15) e aos seus sentimentos, concluindo que:
    – cada outro é um eu (v. 16); só é possível sentir enquanto «eu» ou «nós» (vv. 21-24);
    – não se pode saber o que eles, os «outros», sentem (vv. 17-20); existe uma incomunicabilidade essencial
    entre os seres humanos, de que resulta a consciência individual separada de cada eu

    Ora, no verso 16 ("Quais outros? Não há outros.) o que é dito não é que "cada um é um eu" mas que não existem "outros". Campos concede que as pessoas vivem inconscientes e que o conceito de "outros" apenas existe porque ele olha para eles e os diferencia de si próprio.
    E não existe uma incomunicabilidade entre os seres humanos! O que o poeta diz é simplesmente que quem sofre é o "eu" que vê os "outros". Os outros não sofrem porque não têm esse nível de sofrimento do "eu" que observa. Esta é a tal condição de "ilha" que a Prof.a Rita Lopes muito bem lembra. Claramente o examinador não teve a clarividência para fazer esta consideração e apresenta uma resposta totalmente errada perante a redacção do poema em questão.
  6. No grupo I/B o exame pede uma análise à passagem do tempo em Reis e "implicações daí decorrentes". No cenário de resposta proposto vemos os mesmos elementos de superficialidade apresentados para Álvaro de Campos. Nomeadamente a caracterização de Reis enquanto epicurista e estóico que, perante a "passagem inexorável do tempo", nos prescreve que aproveitemos o momento presente. Ou seja, nem falta o cliché do "carpe diem"... Ora, em que medida é que um aluno, preso dentro do próprio programa, poderá ir além deste enunciado pobre, quando o que lhe é dado a conhecer de Pessoa e dos heterónimos é o mínimo necessário? Há muito mais a dizer de Reis e do tempo em Reis, bastando para tal tomar a primeira ode ("Mestre são plácidas..."). Teria sido muito melhor colocar essa ode e fazer a pergunta de desenvolvimento sobre ela. Mas para quê, afinal, se nem os alunos nem os examinadores parecem ter as bases necessárias para esse desenvolvimento?
Em conclusão devo dizer que concordo que o exame (em termos de Pessoa) é muito fraco e mal elaborado (a pergunta 4 do Grupo I/A devia quanto a mim ser mesmo anulada). Mas não o considerei difícil, muito pelo contrário. Nem podem os critérios de avaliação (básicos e incompletos sim, mas não necessariamente errados) serem os culpados pela má performance dos alunos perante um poema que pode ser complexo, mas sobre o qual foram colocadas perguntas de índole acessível.

Update: entretanto o GAVE já se pronunciou, aqui.