quarta-feira, julho 27, 2011

"Fernando Pessoa - O poeta e os seus fantasmas" - Uma Apreciação Crítica



A Ática continua o seu excelente trabalho de edição de textos de e sobre Fernando Pessoa com um título muito interessante e que já aqui referimos de passagem. O livro em questão é "Fernando Pessoa - O poeta e os seus fantasmas", que inclui uma conferência inédita de Carlos Queiroz (poeta, sobrinho de Ophélia Queiroz e amigo de Pessoa) proferida em 1940 - portanto, cinco anos depois da morte de Pessoa.

Desde logo devo realçar que o título pode ser enganador. É verdade que a maioria do livro contém a conferência (incluindo os originais), mas também podemos encontrar aqui mais três documentos muito interessantes (e raros). São eles uma conferência dada por Queiroz na Emissora Nacional em 1935, a "Carta à memória de Fernando Pessoa" (de 1936) e "Fernando Pessoa / No aniversário da sua morte" (artigo de 1937).

Maria Bochicchio, organizadora deste volume que também prepara tese de doutoramento em que inclui Carlos Queiroz, fez um excelente e avisado trabalho, coligindo estes vários documentos (incluindo ainda algumas cartas), muito úteis como testemunhos directos daquele que foi um dos maiores amigo de Pessoa, apesar da sua juventude relativamente ao autor de Mensagem.

O destaque vai, é certo, para a conferência inédita. Escrevendo apenas cinco anos depois da morte de Pessoa, Carlos Queiroz mostra neste texto ter já uma clara noção da magnitude da obra do poeta, destacando-lhe vários aspectos inovadores relativamente aos seus contemporâneos. Coloca desde logo Pessoa na linha de outros grandes poetas Portugueses, como Camões e Bocage. Chama de "fantasmas" aos heterónimos, dando-lhes consistência quase-humana e dizendo que ele "fingia que fingia" - uma expressão que fica e que nos deixa a pensar.

Grande parte da conferência mostra também sinais menos literários, pequenos apontamentos pessoais que nos dão um vislumbre para o homem: a sua maneira de estar numa discussão (sereno, sem querer dominar uma conversa, protegido, resguardado na sua privacidade), os seus risos nervosos e quase infantis, discreto mas humano, com um espírito liberal, intelectualmente efervescente, tímido e acima de qualquer louvor ou censura, cheio de ironia subtil, sem levar nada a sério mas levando tudo a sério simultaneamente.

Claramente este é texto escrito por um amigo que lamentava ainda muito a perda sofrida. Pelo meio de considerações literárias surge sempre um apontamento pessoal, que torna a conferência extremamente humana e preciosa para quem a lê com interesse em conhecer melhor quem era Pessoa.

O esforço de Carlos Queiroz - como de outros amigos próximos de Pessoa - era o de permitir que ele fosse conhecido do grande público. E embora até agora o papel de Montalvor e Gaspar Simões tenha sido mais publicitado, este volume que agora apresentamos traz à luz também o esforço de Carlos Queiroz, que, através de várias comunicações públicas, desempenhou o seu papel para que a obra inédita de Pessoa pudesse ser, lentamente, trazida à luz do dia. Ele que já em 1936, publicando na Presença a sua "Homenagem a Fernando Pessoa", fazia questão de mencionar que o produto da venda desse folheto se destinava "a contribuir para a publicação da Obra de Fernando Pessoa".

Este volume pode já ser adquirido online, neste link.