segunda-feira, junho 20, 2011

"Central de Poesia - A recepção de Fernando Pessoa nos anos 40" - Uma Apreciação Crítica



No passado mês de Dezembro de 2010, teve lugar, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, um colóquio dedicado ao tema "A recepção de Fernando Pessoa nos anos 40". Está agora disponível uma edição que reúne as comunicações feitas nesse colóquio.

"Central de Poesia - A recepção de Fernando Pessoa nos anos 40" traz-nos 13 interessantes artigos sobre a forma como os poetas Portugueses emergentes nos anos 40 começaram a ser influenciados pelas edições Pessoanas, que começaram a surgir pela mão da editora Ática em 1942.

Primeiro que tudo há que falar da razão de ser deste tema. Entre os Pessoanos há uma tendência para considerar que Pessoa não teve grande influência nos seus contemporâneos, que apenas com as sucessivas revelações da sua obra inédita começaram a surgir poetas influenciados verdadeiramente pela sua poesia e prosa (nos anos 50 e 60). Ora, estes estudos caminham precisamente no sentido de provar o contrário - que Pessoa, pouco depois de morrer, já influenciava decisivamente grandes poetas, como Cesariny, Cinatti ou Andresen. E é muito interessante verificar que estes poetas enfrentaram um "grande acidente geológico" (usando a expressão feliz do prefaciador, e também ele poeta, Manuel Gusmão). Certo é que só através do filtro dos seus imediatos sucessores poéticos pode a poesia Portuguesa avançar para rectroceder, recuperando na segunda metade do século XX e princípios do XXI nomes como Nobre, Pessanha ou Cesário Verde.

Um pequeno aparte para lembrar que a forma como a poesia de Pessoa se espalhava nos anos 30 seria parecida como o próprio Pessoa tinha tido contacto com novíssimos poetas, nos anos 10 e 20 - através de cópia de poemas, efectuada muitas vezes por amigos, dos manuscritos originais (ou das revistas) e transmitidas em sucessão entre círculos apertados com interesses em comum.

Passando aos artigos propriamente ditos. O livro abre com K. David Jackson e «Fernando Pessoa e o "drama em géneros"». Trata-se de uma introdução que o autor faz a uma sua edição recente, onde propõe que a origem dos heterónimos estará nos géneros adversos que eles practicavam; portanto uma tese formal e não estrutural para a génese dos mesmos. Um bom artigo, mas algo deslocado do tema geral do livro.

Muito mais dentro do tema é o artigo seguinte, de Américo Diogo, centrado sobretudo em Eugénio de Andrade e Mário Cesariny. A "luta" de ambos contra e a favor de Pessoa (sobretudo do Pessoa publicado e o Pessoa inédito) não deixou de me fazer questionar em que medida estes primeiros "críticos"/"influenciadores" foram decisivos na construção do mito Pessoano.

Mito esse que também edificado em parte pelos presencistas, que Fernando Cabral Martins aborda no seu artigo, intitulado precisamente "Os príncipes e os impostores: a construção presencista de Pessoa". Casais Monteiro, Gaspar Simões e José Régio são figuras-chave nesta construção, muitas das vezes deturpando a interpretação dos poemas de Pessoa aos seus próprios cânones - chegando ao ponto de o editarem usando os mesmos filtros.

Nesta altura há que perguntar em que medida a figura de Pessoa se assomava simultaneamente como ameaçadora e irrecusável por esta geração que o via partir, mas que o continuava a ver presente no seu dia-a-dia, crescendo cada vez mais em influência. Qual seria afinal o papel de Pessoa na história da poesia Portuguesa? - esta era a questão que se punha. Jerónimo Pizarro, no artigo "A larga celebridade: herdeiros e interlocutores de Fernando Pessoa" toca precisamente neste ponto.

José Régio aparece claramente como grande crítico de Pessoa nos anos 40 - ele preferia colocar Mário de Sá-Carneiro numa posição superior, talvez por influência do único encontro com Pessoa, onde lhe apareceu, inesperadamente, um mal disposto Álvaro de Campos... Mas, como bem indica Pizarro, Pessoa estaria mais à vontade com Gaspar Simões e Casais Monteiro, ambos mais críticos do que poetas (e provavelmente, aventuramos nós, mais facilmente manipuláveis por Pessoa). Mas muitos outros escreveram nos anos 30 sobre Pessoa e Pizarro elenca exaustivamente esse diálogo - feitos muitas das vezes através de ofertas e recebimento de livros.

A partir dos anos 40, um dos mais prolífico estudiosos Pessoanos foi Jorge de Sena. Curiosamente Sena foi um Camoniano dedicado, como indica Osvaldo Silvestre no seu artigo "O (menino) doutor entre os doutores: Fernando Pessoa em Jorge de Sena, nos anos 40", mas acaba por, no final da vida, se identificar como um dos principais Pessoanos, muito por mérito próprio em se erguer para essa mesma condição. Novamente é de nos questionarmos em que medida estes poetas/críticos procuravam uma solução para não serem devorados pela presença avassaladora de Pessoa...

Presença essa, ambivalente também entre os neo-realistas, segundo Fernando J. B. Martinho, no artigo seguinte. Ou quase nenhuma em Carlos de Oliveira (artigo de Patrícia Martins).

Talvez fosse necessária uma voz feminina para resolver esta tensão entre os poetas dos anos 40 e a obra de Pessoa. Aqui entra Sophia de Mello Breyner Andresen. Como nos indica António Guerreiro, ela procurará integrar a influência de Pessoa, mas, simultaneamente, procurar outras influências próprias - nomeadamente românticas e clássicas. Curiosamente Sophia reconhece a solidão axiológica de Pessoa e tenta recuperar a poesia dessa mesma solidão, recorrendo a "artifícios" clássicos. A presença de Sophia é de certo modo antinómica face a Pessoa - ela procurando o positivo e a harmonia, ele insistindo no fatum e no despedaçamento do eu. Penso que o artigo de Guerreiro se torna um dos mais interessantes deste volume precisamente por desvendar esta tentativa de reacção positiva a uma obra (aparentemente) caótica e destruidora.

Se Sophia tentou a reconciliação, isso seria de todo impossível ao surrealista Cesariny. Cesariny aborda (talvez seja o primeiro a fazê-lo), o Pessoa-mito. Tinha sido erguido a esta estatura pela presença e era o alvo ideal para o jovem surrealista. Pessoa tinha-se tornado em certa medida no establishment. Cesariny ridiculiza a complexidade Pessoana e toca na ferida - a ausência da sexualidade (no autor e pretensamente na própria obra). A sua obra Pessoana é essencialmente provocadora e interessantíssima nessa mesma perspectiva (já falámos sobre isso mesmo aqui). Este é um artigo também de leitura obrigatória, pelo seu interesse.

Os artigos seguintes falam sobre a influência de Pessoa em Rui Cinatti (artigo de Tatiana Faia) e Eugénio de Andrade (artigo de Fernando Pinto do Amaral). O volume termina com dois artigos interessantes: um sobre a influência de Pessoa em África - o autor (Luís Dias Martins) conclui que ela é diminuta, com a própria presença de África na obra Pessoana; e outro sobre "O cinema de Orpheu" (artigo de Fernando Guerreiro).

Em conclusão, as actas deste colóquio apresentam-nos uma perspectiva original sobre a primeira recepção indirecta da obra de Pessoa nos grandes poetas que se seguiram a ele a também ilustra de certo modo a maneira como Pessoa-mito começou a ser construído nos anos 40 (tanto pelos detractores como pelos seus directos discípulos). Uma leitura altamente recomendável para todos aqueles que gostem de poesia Portuguesa contemporânea (e não só de Pessoa, claro).

Este volume pode ser adquirido aqui.

Um agradecimento a Patrícia Soares Martins pelo envio de um exemplar para análise.