terça-feira, maio 31, 2011

"O Marinheiro" - Uma Apreciação Crítica



"O Marinheiro" foi o título dado a uma peça de teatro estático, publicada pela primeira vez no número 1 da revista Orpheu em 1915. Na base de toda a "Obra" Pessoana está talvez esse ímpeto dramático, que se expressa melhor em forma de peça teatral, por isso nunca é demais recordar a importância deste texto - a única peça de teatro completa que Pessoa nos deixou (deixou outras, mas incompletas).

Embora publicado (e encenado) várias vezes, esta edição da Ática traz-nos algumas novidades. Desde logo a autora do estudo em redor do texto - Cláudia Souza - diz-nos que o texto de "O Marinheiro" publicado em Orpheu não era a versão final do mesmo, segundo testemunho do próprio Pessoa. São publicados ainda alguns textos inéditos, que nos ajudam a perceber o contexto do teatro estático no todo da obra Pessoana. Nomeadamente um plano com sete peças, entre as quais as mais completas que nos chegaram foram "A morte do príncipe" e "Diálogo no jardim do palácio".

Permitam-me um momento para dizer que este tema - do teatro estático - me é particularmente querido. Os meus primeiros contactos com Pessoa foram feitos através dos seus textos mais dramáticos (Campos e as peças de teatro estático, sempre nas edições de bolso da Europa-América editadas por António Quadros) e isso sempre deixou uma grande marca dentro de mim, enquanto apreciador do seu trabalho. Ao ponto de eu, enquanto escritor, me ter aventurado também nesse campo, tendo tido a oportunidade de ser editado, numa recolha de textos há bastante tempo, com uma peça de teatro estático de minha autoria.

Tenho por isso uma posição forte sobre o significado desta peça. Seria inevitável não a ter. Discordo por isso, em grande medida, com a autora do estudo que acompanha o texto, quando ela diz que o mesmo tem na sua base a relação da linguagem com a morte. Penso que isso poderá ser uma leitura demasiado elaborada e que, na realidade, o que ocorre nestas peças de teatro estático é que cessa toda a acção. Simplesmente isso. Há que compreender o que isto quer dizer num âmbito mais alargado em Pessoa - como o poeta entendia a forma como tinha falhado na vida activa e que apenas lhe restava o sonho como alternativa para dar cabimento completo aos seus projectos.

Aliás isto é bem claro num outro texto citado (e famoso), o poema de Álvaro de Campos que fala da maneira como o Engenheiro, depois de ler "O Marinheiro", ironiza sobre a maneira como as veladoras, falando entre si, se questionavam porque ainda estavam a falar. O poema de Campos, de juventude (1915) é de um Campos ainda adepto da acção - perante um Pessoa adepto do que chamaríamos "inacção". Campos não pretende, como diz Cláudia de Souza, dar continuidade à pergunta circular (porque falamos ainda?), mas antes quer desmascarar a necessidade da própria suspensão da acção: "porque falamos ainda, quando podíamos agir?".

Claro que todas as análises têm o seu quê de subjectivo e a que eu lanço não deixará de ser, também ela, discutível. No entanto não quis deixar de dar o meu lado da questão. No entanto o mais importante é que esta vertente da obra de Pessoa seja divulgada e o que o máximo possível de leitores tirem as suas próprias conclusões e o presente volume, com a sua cuidada edição, proporciona, felizmente, isso mesmo.

Agradecimentos à autora pelo envio de um exemplar para análise.

Este volume pode ser adquirido online neste link.