domingo, maio 15, 2011

"Los Pliegues del Sujeto" - Uma Apreciação Crítica



Sempre houve um grande interesse em analisar a obra de Pessoa de um ponto de vista psicanalítico. Prova disso mesmo é que a primeira grande biografia do poeta, feita pouco mais de uma dezena de anos depois da sua morte, ser precisamente acusada de ser demasiado Freudiana. Mais recentemente o interesse nesta análise tem-se reavivando, como exemplifica o recente Colóquio Internacional “Nietzsche, Pessoa e Freud”, que decorreu em Lisboa na passada semana.

Julgo que este facto traz um pau de dois bicos - por um lado é interessante analisarmos Pessoa profundamente, tentando perceber o porquê da sua obra e especialmente o papel desempenhado pela sua necessidade inata para a despersonalização; por outro, corremos o risco de over analysing e de tornar a própria obra e o seu criador em freaks, anomalias.

O livro de Ani Bustamente, "Los Pliegues de Sujeto, una lectura de Fernando Pessoa", é - digamos desde o princípio - um livro técnico, e não propriamente uma biografia de Pessoa ou algo que se centre no poeta. Ela usa Pessoa como um exemplo intermediário para a compreensão do papel do sujeito actual, numa perspectiva psicanalítica, sobretudo face à dissolução do eu nas diversas manifestações da personalidade moderna. Ou seja, é um livro permeado por filosofia, psicologia e poesia.

Confessa-nos a autora: "El motivo principal de este livro es el llegar a pensar los movimientos y lugares de sujeto contemporáneo a partir del modelo que nos brinda Fernando Pessoa con su obra". (pág. 290).

Não pretendemos ser especialistas e abordamos este livro da perspectiva Pessoana - será nessa luz que a nossa crítica será elaborada. E nessa perspectiva achámos muito interessante a teoria topológica apresentada pela autora, defendendo que os heterónimos são "pliegues" (pregas) no sujeito, ou seja, curvaturas na linha horizontal do "sujeito", que se relacionam entre si e, simultaneamente, levam a um isolamento do "eu original" para dentro de si mesmo. Entre as pregas estarão os "intervalos" (tantas vezes mencionados na obra de Pessoa), que acabam por dar ao poeta dividido (pág. 22) a sensação de perda da sua própria identidade fundamental.

Bustamente começa por explicar (tecnicamente) a teoria da divisão do sujeito, recorrendo primeiro a Freud e depois a Lacan, Deleuze e Winnicott. Depois aplica a sua "topologia" das pregas à obra Pessoana (pág. 135 e segs), chegando à conclusão que o "eu original" acaba afastado e isolado, deixado a "un aislamiento en qual vive atraves de sueños". O "eu" deixa de ser uno (a autora não investiga o porquê) e passa a viver numa multiplicidade que modela, como ondas de rádio, usando para tal a linguagem poética.

Claro que o objectivo de Ani Bustamente não era compreender Pessoa, mas usar o seu exemplo para a compreensão do sujeito moderno e a maneira como este sujeito vive em sociedade, nomeadamente como a sua pluralidade (e virtualidade) acaba por ser sinónima da heteronímia Pessoana. De facto o sujeito moderno recusa a vida linear e acaba por assumir diferentes personalidades (virtuais, mascaradas, diferenciadas, etc) que o ajudam a reagir à própria dispersão e velocidades do mundo moderno. Para Bustamente a poética acaba por surgir como ferramenta-bússola para orientar o sujeito. Cada sujeito terá uma "poética individual" que o ajudará a compreender a sua própria relação múltipla com o mundo em seu redor. Uma hipótese fascinante e sobre a qual decerto vale bem a pena reflectir.

Agradecimentos à autora pelo envio de um exemplar para análise.

O livro já se encontra à venda online, podendo ser adquirido aqui.