segunda-feira, maio 30, 2011

"A Demonstração do Indemonstrável" - Uma Apreciação Crítica



A Ática continua a editar obras de Fernando Pessoa em livros de fácil alcance ao público em geral. Desta vez apresentamos o volume "A Demonstração do Indemonstrável". Trata-se de uma edição bilingue, a cargo de Jorge Uribe, que nos revela um texto inédito de Pessoa ("Proving the Unprovable" no original), escrito em Inglês, e que discorre sobre questões ligadas à linguagem e sobretudo à possibilidade de argumentação e contra-argumentação.

Devo dizer que, numa primeira leitura, não pude deixar de pensar na maneira como este texto se poderia enquadrar na importância que o paradoxo assume na obra de Pessoa. Explico. O chamado "drama em gente", nome comummente dado ao desenvolvimento paralelo dentro de Pessoa de todas as obras paralelas dos seus heterónimos (e pseudónimos), engloba em si mesmo uma "discussão em família". Esta discussão aparecia na forma em que Pessoa colocava as suas personagens literalmente a comunicar umas com as outras - há que compreender que quase nenhuma delas estava numa realidade estanque, e que se relacionavam, originando polémicas, troca de impressões e chegavam mesmo a influenciar-se umas às outras (sendo o maior exemplo disso mesmo a influência de Caeiro em Campos e em Reis). Ora, o paradoxo que podemos encontrar nesta "Obra" de Pessoa é precisamente a forma como ele conseguia defender posições opostas num mesmo argumento, bastando-lhe alternar de personalidade.

Fernando Pessoa pretendeu - pensamos - ter um sistema filosófico muito elaborado, sustentado pela teoria da despersonalização, que lhe permitia acesso a "várias vidas" e, dentro dessas "várias vidas", a várias posições conflituosas relativamente a diversos assuntos. Era como se ele, desdobrado, conseguisse uma visão positiva e negativa de tudo o que se aventurava a pesquisar. Trata-se de uma teoria incrivelmente inovadora e original, que ainda não foi completamente analisada.

Penso que o fascínio de Pessoa com a linguagem, com as charadas (que menciona muito neste texto) e sobretudo com a capacidade de argumentar e contra-argumentar da mesma forma, exerceu sobre ele uma grande influência. Lembro aqui uma outra passagem, a que refere "tudo é verdade e caminho" e que poderá sintetizar na perfeição o seu alinhamento no mundo completamente falso, mas no qual tudo pode ser completamente verdadeiro. Ao aceitar todas as possibilidades, discutindo-as, aceitando-as dentro de si, Pessoa pretendia um acesso completo ao que pode ser afirmado e ao respectivo (e diametralmente) oposto.

Jorge Uribe, no posfácio, levanta a hipótese deste texto poder ser de Thomas Crosse - até agora uma figura menor, relegada a deveres de tradutor. A hipótese de haver, pelo menos em projecto, um pré-heterónimo dedicado a questões de linguagem é extremamente interessante e mostra, talvez em embrião, as preocupações latentes sobre a maneira como o discurso filosófico podia ou não estar limitado pela linguagem - uma questão que teria toda a importância no fim do Séc. XX, com a transição do existencialismo para a objectivismo trazido pela filosofia da linguagem.

Este volume pode ser adquirido online neste link.

Agradecimentos a Pedro Sepúlveda (responsável pela tradução) pela disponibilização de um exemplar para análise.