sexta-feira, abril 29, 2011

Onde está o corpo de Fernando Pessoa?



Certas curiosidades povoam por vezes o mundo mitológico Pessoano. Uma delas, já mesmo lenda urbana, é certamente o processo de transladação dos restos mortais de Fernando Pessoa, sobretudo a parte em que o caixão terá sido aberto para revelar o corpo ainda incorrupto do poeta.

Tendo Pessoa morrido em 30 de Novembro de 1935, dia 2 de Dezembro é levado a enterrar no Cemitério dos Prazeres, para ficar ao lado da sua avó louca Dionísia no jazigo familiar (Rua 1, Direita, n.º 4371). Ali ficará em repouso até à sua transladação para os Jerónimos em 1935. É em 24 de Junho de 1983 que a transladação é proposta, por mão de Manuel Alegre, em proposta à Assembleia da República. Manuel Alegre aventa a possibilidade da mesma se fazer ainda em 1983, por ocasião do fecho da XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura realizada em Lisboa em Maio desse ano.

No entanto a transladação ocorre apenas em 1985, ano do cinquentenário da morte e também o ano da edição de O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago (que aliás, chega a escrever sobre este tema). O dia da transladação não parece certo... há quem indique 13 de Junho, dia do nascimento, mas há autores a falar de 15 ou 16 de Outubro. A directora actual do Mosteiro dos Jerónimos, Isabel Cruz Almeida, confirmou-me a data de 16 de Outubro. A transladação é feita para os claustros, fora da Igreja, e com proporções menos monumentais do que outras figuras literárias ali presentes (sobretudo Alexandre Herculano).

Seja como for, a polémica surge com um artigo num jornal Espanhol, o ABC, de Madrid, que noticia, em 1991, que, aberto o caixão, o corpo estava incorrupto e por isso foi decidido não o mover do jazigo. Sabe-se que a família de Pessoa, sobretudo a sua meia-irmã concordava em teoria com a transladação, porque honrava o poeta, mas ao mesmo tempo sentia-se especialmente mal deixando-o novamente sozinho, sem a companhia da família ("Ficou tão só... Enfim ele não está ali, e isso consola-me" foi o que disse a meia-irmã de Pessoa, mas refere-se, obviamente ao facto do espírito não estar ali e não propriamente o corpo). Oficialmente temos fotografias da época em que é mostrado o caixão coberto com uma bandeira de Portugal a ser transportado dentro do Mosteiro dos Jerónimos. A cerimónia oficial foi presidida mesmo pelo Presidente da República de então, o General Ramalho Eanes.

Sendo muito improvável que o corpo não se encontre mesmo nos Jerónimos, a dúvida acerca desta transladação falhada só poderia mesmo ter surgido em virtude da aparente falsa proporção do novo monumento funerário. Num olhar menos atento poderá parecer que um caixão não possa caber ali. Aliás isso terá levado um dos biógrafos - Robert Bréchon - a hipotizar que o corpo teria de ter sido partido para caber, realidade que, por provas fotográficas do caixão, não se parece ter verificado. Falei há algumas semanas com José Paulo Cavalcanti, o último dos biógrafos de Pessoa, que me validou a abertura do caixão, tendo ouvido ele testemunho directo de pessoas que viram o corpo, pelo que essa parte da história parece sólida. Quanto às razões para não ter havido transladação, terão sido apenas rumores. Novamente a directora dos Jerónimos me confirmou, directamente, que a transladação ocorreu de facto. Como Cavalcanti hipotizou em conversa informal, o corpo terá então começado a consumir-se, saindo do seu estado de mumificação, porventura pelas condições atmosféricas particulares em que se encontrava nos Prazeres.

Não parece haver dúvidas então, que o corpo se encontra hoje nos Jerónimos. Pelo menos a acreditar nas declarações oficiais e sobretudo nos testemunhos directos daqueles que viram o corpo no momento da transladação. Será porventura tempo de deslocarmos a nossa atenção para outro elemento mítico desaparecido: a sua Arca.