terça-feira, abril 05, 2011

"Fernando Pessoa - Uma quase Autobiografia" - Uma Apreciação Crítica



Não será hábito começar uma recensão de um livro por citar outras apreciações já publicadas. Mas neste caso torna-se irresistível falar na maneira como a mais recente biografia de Pessoa foi sendo recebida nas últimas semanas: Fernando Pessoa seria homosexual? Sim, Cavalcanti diz que Pessoa era gay (já agora, também era Gandhi). A devassa levada a cabo pelo "Brasileiro" continuou inclusive pela descoberta de mais 55 heterónimos e por ousar dizer que Pessoa, afinal, não tinha imaginação.

Escapou a todos a maior novidade deste livro: o facto de não ser um livro com novidades.

Não me percebam mal, a edição é cuidada e a investigação minuciosa, mas, desde que se lê o título do capitulo inicial - "Paraíso Perdido" - ficamos desde logo com a nítida sensação de que o autor se limita, 80% do tempo em fazer uma súmula do que já fora publicado, o que resulta num texto de difícil leitura e, o que é mais grave, pouco rigor, pois são (muito) raras as notas de rodapé referindo as fontes originais (a nossa própria investigação sobre o "Dia Triunfal" é citada, mas o autor apenas deixa o nome do astrólogo que eu consultei, errando mesmo assim o nome do mesmo...). Para acrescer à dificuldade de leitura, vemo-nos perante um texto escrito com recurso "às palavras do próprio Pessoa". Trata-se de um artifício que, na minha opinião, não deu resultado e que peca por cansativo para um livro de 700 páginas. Aliás, ver-se-ia logo a inutilidade do mesmo quando este é abandonado nos períodos da vida de Pessoa que ele não cobre nos seus versos (o exemplo maior é a sua adolescência em África, momento em que as citações desaparecem subitamente).

O livro respira melhor quando o autor refere momentos de verdadeira investigação - o exemplo maior é a desconstrução do poema "Tabacaria", revelando onde foi escrito e onde seria a Tabacaria. Ou então quando pega noutras personagens presentes na poética e tenta dar-lhes consistência de realidade. Cavalcanti consegue-o, mas o salto para a conclusão de que "Pessoa não tinha imaginação" é demasiado arriscado e, quando a mim, erróneo. Responde-lhe o próprio Pessoa: "Dizem que finjo ou minto / Tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / com a imaginação. / Não uso o coração". Quando Pessoa era vivo, acusavam-no de ser frio, demasiado racional; julgo que não é altura para regressarmos a esse entendimento, nem ir para o oposto de o considerar fingidor assumido de tudo. Nem fingidor nem sem imaginação...

Que Pessoa poderia ser gay, ter um sexo pequeno ou ser vaidoso já não é novidade. Ou que poderia ter morrido de pancreatite. Aliás, sucedem-se neste livro uma lista infindável de novidades que chegam demasiado tarde. E depois, incompreensivelmente, faltam os pequenos pormenores. Dois exemplos: falando do General Henrique Rosa, não se fala da colaboração de ambos nos jornais da época (tema tocado por Manuela Nogueira nos seus livros e comunicações recentes); quando fala de Almada Negreiros, não se toca no papel do mesmo na troça com a queda de Afonso Costa do eléctrico e posterior ameaça à vida (ou pelo menos integridade física) de Pessoa, que por Campos tinha troçado do facto.

Outro pormenor que me "tirou da leitura" foi o facto da organização do livro passar de cronológica a "temática", sem se explicar bem o porquê. Pensar-se-ia que a estrutura do livro poderia reflectir apenas uma ou outra opção e não um misto que dificulta em muito a leitura.

Devo dizer que se estou a ser demasiado crítico é sobretudo porque esta biografia foi sendo anunciada como a "mais completa de sempre". E talvez seja, mas em que medida um livro que reúne informações de incontáveis outros e lhes junta alguma investigação, interessante mas ainda assim acessória, se torna imprescindível no universo exclusivo das biografias Pessoanas? A erudição do autor esconde, em parte, esta colagem, mas deixa, no final, apenas a sensação de alguma distanciação emocional face à recolha frenética de factos de forma a completar uma imagem demasiado desumanizada do poeta - atingindo precisamente o oposto do que se pretendia atingir, que era destruir o poeta feito símbolo expondo-lhes as influências humanas na obra.

Apenas em pormenores se salva, infelizmente, a edição. O maior deles conta-se a páginas 676 e seguintes e conta que, quando Pessoa morreu, as freiras do Hospital São Luís dos Franceses chamam Ophélia (quiçá a pedido de Pessoa, não se diz, mas de que outro modo saberiam da relação entre os dois, terminada anos antes?) e deixam-na no quarto a sós com o cadáver, das 20h e pouco ao raiar da madrugada. Ophélia entra no quarto e toca a frente fria de Pessoa, colocando depois a mão direita dele entre as suas, e fica a falar com ele. Quando as freiras lhe pedem carinhosamente que saia, com medo da chegada da família, passam-lhe para as mãos um pequeno livro de poemas de Bocage que tinha ficado no bolso do defunto (trouxera-o para ler e por isso pedira os óculos ao sentir que ficava sozinho e próximo de morrer). Ophélia levou-o, num envelope, com grande descrição, contando só anos mais tarde a história a um jornalista Brasileiro, que ficou com o livro, entregue em mãos por Ophélia, como prova cabal do ocorrido.


Update: Richard Zenith, com base na investigação em torno do livro de Bocage na biblioteca de Pessoa à hora da sua morte, negou a versão da história contada por Cavalcanti.