quarta-feira, janeiro 05, 2011

Sobre o Acordo Ortográfico

Uma carta bem interessante de Pessoa, em que se revela a abertura de espírito de um verdadeiro modernista (embora ele não o quisesse assumir):

Apartado 147.

Lisboa, 19 de Dezembro de 1930.

Meu querido Gaspar Simões:
Começo a enviar-lhe a colaboração prometida para o n.º 30 da Presença. Vai junto o Oitavo Poema de O Guardador de Rebanhos do Alberto Caeiro. Espero que goste dele. De aqui a uns dias – naturalmente na segunda-feira –, lhe envio as notas (algumas) do Ál­varo de Campos sobre o Caeiro.

Fiz o possível por transcrever o poema que vai junto em ortografia moderna, visto que é a que vocês usam na Presença, e fica sempre mal o desacordo orto­gráfico adentro de uma publicação qualquer. Se é certo que, por diversas razões, uso da ortografia antiga, isso não quer dizer que me importe que vocês ponham o que eu enviar para a Presença em ortografia moderna, ainda que eu me não tenha lembrado de o fazer. V. fica desde já autorizado em absoluto a reortografar como melhor lhe parecer ou convier o que eu enviar para aí. Se na transcrição do poema do Caeiro errei qualquer ponto ortográfico, apesar de desejar conformar-me com a ortografia moderna, v. emende.

Um abraço do amigo e admirador de sempre,

Fernando Pessoa.