quarta-feira, dezembro 01, 2010

"Provérbios Portugueses" - Uma Apreciação Crítica



Uma das facetas menos conhecidas de Fernando Pessoa é certamente a sua faceta de tradutor. Sabemos, principalmente por documentos presentes no espólio, que se ocupou de diversas comissões neste âmbito, talvez a mais conhecida de todas tenha sido a tradução de obras Teosóficas, que se seguiu ao seu fascínio com a filosofia de Madame Blavatsky.

Agora a Ática - editora mítica quando se trata de obras Pessoanas - apresenta-nos um dos projectos nunca editados no âmbito das traduções Pessoanas. Trata-se de uma colecção de 300 provérbios Portugueses numa edição bilingue Português/Inglês efectuada por Pessoa nos anos de 1913/14.

Foi o próprio Pessoa que, numa carta enviada a um editor Inglês, teve a iniciativa de propor a edição, numa colecção de National Proverbs em que não constava Portugal (mas constava Espanha). Um claro exemplo - dizem os editores Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari e bem na sua "Introdução" - da necessidade de "fazer pela vida", por parte de Pessoa. Aliás, esta edição da Ática ilustra muito bem (e esse é um dos seus detalhes mais originais) tudo o que esteve por detrás do esforço de Pessoa na eventual publicação dos "Provérbios" - que acabou por falhar devido à eclosão da I Guerra Mundial.

Os editores procuraram, com grande rigor, ilustrar o interesse de Pessoa por este tipo de literatura (que afinal é tão Portuguesa quanto Inglesa, como ilustram os fantásticos "ditos" de Sam Weller nos Pickwick Papers - o livro preferido de Pessoa na juventude), onde Pessoa recolheu os provérbios, como procedeu à sua selecção e mesmo como os alterou ou "melhorou" até chegar às versões finais. Também podemos ter uma perspectiva de como Pessoa decidiu operar as traduções e algumas das razões por detrás das suas opções.

Numa nota pessoal - que nada tem a ver com a edição em si mesma - achei que as traduções de Pessoa eram, no mínimo, "secas". Vejam-se dois exemplos rápidos:

Quem se faz mel, as moscas o comem.
If you make yourself honey, then flies will eat you.

Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.
If you don't want to be a wolf, don't wear its skin.

Há uma clara vontade de acabar o trabalho, de forma económica e eficiente, sem despender grande energia numa tradução literária demasiado aprumada ou criativa. Penso que passa na própria obra poética em Inglês esta mesma "energia desfocada", um uso da língua que parece sempre estrangeiro e forçado. Isto embora haja sempre algo de Pessoa que se encontre, aqui e ali.

Mas voltando à edição, temos de elogiar a visão total que nos é dada, e que é de facto nova neste tipo de livros, quase de bolso. Trata-se de uma quasi-edição crítica em miniatura do texto, com imensos pormenores e toda a história envolvente. E o mesmo método está a ser seguido por exemplo na colecção Olisipo da Guimarães (que lançou recentemente mais alguns dos projectos editoriais de Pessoa, que teremos ocasião de analisar em breve). São livros muito mais ricos do que estamos habituados a ter, fora das edições académicas e que possibilitam ao mais comum dos leitores ficar a saber com pormenor a génese, o percurso e mesmo a razão da existência dos textos.

Este livro já pode ser adquirido online, neste link.

Agradecimentos ao Professor Jerónimo Pizarro pela disponibilização de um exemplar para análise.