segunda-feira, dezembro 06, 2010

"O Corpo em Pessoa" - Uma Apreciação Crítica



"O Corpo em Pessoa", agora editado pela Assírio & Alvim, é uma edição que contém uma dúzia de ensaios dedicados precisamente à temática da "corporalidade, género e sexualidade" na obra de Fernando Pessoa; ensaios originalmente publicados em Inglês em 2007.

Os editores dividiram o volume em quatro partes: I. Investigações Corpóreas; II. Leituras queer de Pessoa; III. (Des)localizar as mulheres e IV. Pessoa em performance.

Desde logo há que salientar que o livro não foi motivado por um desejo puro de explorar lados mais polémicos ou sensacionalistas relacionados com a exegese Pessoana. Aliás, os próprios editores explicam, na excelente "Introdução", que o objectivo de "O Corpo em Pessoa" é de alargar o espectro de interpretação de uma obra que é considerada, pela maior parte dos especialistas, como sendo eminentemente racional e abstracta. E é bem verdade que a racionalidade tende a obscurecer outras vertentes do que Pessoa diz e escreve, que muitas das vezes reflecte visões materiais, corporais (e corporizantes) da realidade.

No entanto - e pela própria natureza da "obra" de Pessoa - torna-se quase impossível distinguir por vezes entre o "teatro mental", a encenação e a realidade das coisas. Talvez por isso mesmo o livro se inicie com uma parte com o nome "Investigações Corpóreas". O primeiro ensaio, de Dana Stevens, "Fingir é conhecer-se" versa precisamente sobre o fingimento e de como a infantilidade em Pessoa pode dar lugar a experimentações na melhor forma de moldar a realidade - atingindo um fingere latim, no sentido de esculpir a realidade amorfa, de construir as próprias realidade corporais a partir de irrealidades mentais. O problema da estética (a meu ver acessório relativamente ao do fingimento) é tratado no ensaio seguinte, de Alessandra Pires e completa-se no ensaio de Blake Strawbridge (que quase parece nome de heterónimo Pessoano) dedicado à abdicação e à arte no "Livro do Desassossego".

Na segunda parte do livro temos quatro leituras queer de Pessoa: Fernando Arenas fala do desejo homoerótico em Pessoa, George Monteiro escreve sobre os dois poemas Ingleses (e eróticos) "Antinous" e "Epithalamium" e Mark Sabine dedica-se apenas ao poema "Antinous". É muito curiosa a operação de recolocação que este poemas "malditos" estão a sofrer nos últimos anos, sendo aparente que estão a ganhar cada vez mais reconhecimento - sobretudo no papel comparativo que desempenham na obra de Pessoa. Relembre-se por exemplo a interessantíssima tese que António Feijó apresentou recentemente no II Congresso Internacional Fernando Pessoa onde propôs uma leitura lado-a-lado das "Notas para a recordação do meu mestre Caeiro" com o poema "Antinous". Resta saber em que medida a produção poética homoerótica de Pessoa era realmente genuína, ou não apenas levada, como era hábito nele, como função replicadora dos seus próprios poetas preferidos. Nesta perspectiva, a qualificação de queer parece-nos excessiva e demasiado Americanizada; não por ser chocante, mas antes por poder ser inexacta.

Na terceira parte encontramos ensaios de Maria Irene Santos, Kathryn Bishop-Sanchez e Anna Klobucka, respectivamente sobre musas, sobre a imagem da mulher em Campos e sobre as cartas de amor. Devo dizer que o ensaio de Klobucka foi o que eu achei pessoalmente mais interessante, especialmente porque fala numa coisa que eu já tinha pensado - porque não se edita e/ou analisa a correspondência Pessoa-Ophélia numa perspectiva dual, lado-a-lado. É interessantíssimo ler as cartas de Pessoa e depois ver as de Ophélia, para realmente compreender "os dois lados" do romance.

Finalmente, na quarta parte, surge "Pessoa em Performance"; com ensaios de Fernando Cabral Martins, Richard Zenith e Francesca Billiani. O ensaio de Zenith é especialmente interessante, reforçando uma descoberta recente do investigador de um "heterónimo gay" (mas anónimo) no espólio. Mas Zenith vai um pouco mais longe e fala (com grande interesse) da sexualidade nos escritos automáticos Pessoanos.

Em resumo esta edição traz visões muito interessantes sobre a obra de Pessoa, se bem que não se possam certamente considerar revolucionárias. Mas é positivo ver sobretudo a crescente desmistificação da sexualidade em Pessoa, embora haja o perigo da colagem a certos estereótipos (como literatura queer) que nos parecem de todo inadequados e nascidos de uma necessidade académica de "explicar tudo" e de colocar o "Pessoa todo" debaixo do microscópio. Esperemos apenas que a abertura crescente desta nova vertente de estudos não diminua ainda mais a importância do homem por detrás da obra - porque mesmo em vida este homem diminuiu-se a si próprio demasiado perante a sua própria obra; e era tempo dos críticos não aprofundaram o erro mortal.

Este livro já pode ser adquirido online, neste link.

Agradecimentos à Assírio & Alvim pela disponibilização de um exemplar para análise.