sábado, novembro 27, 2010

"El Pensar Poético de Fernando Pessoa" - Uma Apreciação Crítica



O panorama relativo aos estudos filosóficos em torno de Fernando Pessoa é bastante pobre. Aliás, é ainda mais pobre o panorama relativo às edições de originais de Fernando Pessoa relativas ao tema. Essa é talvez a principal queixa de alguns dos autores que colaboraram no livro "El Pensar Poético de Fernando Pessoa" - que reúne ensaios filosóficos sobre o poeta, apresentados originalmente no "2.º Encuentro Internacional Fernando Pessoa, poeta y pensador" que se celebrou nos dias 7 e 8 de Outubro na Universidade de Valladolid.

Julgamos que, pelo menos publicamente, o único estudioso filosófico de Pessoa com algum destaque tem sido José Gil, que recentemente publicou "O Devir-Eu de Fernando Pessoa". Mas, reforçando o que disse anteriormente, é raríssimo aparecerem edições filosóficas Pessoanas, ou seja, edições que se debrucem sobre o Pessoa-pensador e não apenas o Pessoa-poeta. Por isso foi com grande agrado (e atenção redobrada) que li a presente edição.

Quanto ao conteúdo da mesma ela inicia-se com um ensaio introdutório em que Pedro Lago define a filosofia de Pessoa como uma filosofia desgarrada, uma filosofia DIY em que ao sujeito-leitor é proposta a montagem dos elementos analíticos propostos. O resumo é feito no sentido de uma experiência filosófica aniquiladora do ser - efectuada em múltiplas dimensões pelos seus heterónimos.

De seguida Julia Diéguez analisa a questão do sujeito em Fernando Pessoa. Trata-se de um ensaio extremamente complexo e bem conseguido, em que a autora aproxima o pensamento de Pessoa ao paradigma da complexidade - sistema iminentemente trans-(e inter)disciplinar, em que contribuem diversas racionalidades, entrelaçadas entre si. Aparece uma realidade analisada na interacção entre sujeito e objecto, mas sempre permeada pela actividade do sonho, que despedaça e pormenoriza tudo. A autora defende a construção de um "sujeito estético puro", relacionado de certo modo com as virtualidades ontológicas em redor do "eu" e das criações heteronímicas - o que é uma visão muito interessante. Os heterónimos depois surgem mesmo como potenciais geometrias diferenciadas do "eu"-primeiro de Pessoa (autênticas extrapolações geométricas da existência, potencializando uma mesma existência em infinitas regressões e progressões paralelas). Trata-se de um excelente ensaio, que dificilmente se resume em algumas linhas, mas que está entre os melhores do livro (e que vale a pena reler para apreciar melhor).

António Cardiello segue-se, com um ensaio sobre Pessoa e Nishida Kitaro, um famoso filósofo Japonês. Não é a primeira vez que se aproxima o pensamento da filosofia Zen a Fernando Pessoa, nomeadamente à poesia de Alberto Caeiro. Cardiello, no entanto, fá-lo referenciando directamente um autor específico, o que é extremamente interessante. Fiquei com a sensação (que não tinha visto em outros estudos) de que Caeiro poderia, como diz o autor, ter chegado a um estado de conhecimento plenamente estético - "pura sensação visual" - colocando-se ao mesmo nível de quem o lê, como um artista se coloca ao nível de quem observa a sua obra. Seria então Caeiro uma espécie de "esteta da realidade"? A experiência do nada, do vazio gnosiológico, afinal, a experiência de Buda, seria então uma experiência verdadeiramente partilhada entre Caeiro e o seu leitor - e seria talvez essa a grande mensagem da sua linguagem filosófico-poética. Muito interessante.

Pablo López analisa de seguida a "vontade de infância em Fernando Pessoa". É curioso que este tema foi de certo modo um tema recorrente no passado dia 1 do II Congresso Internacional Fernando Pessoa. López reconhece o facto de Pessoa ter dito não "sentir saudades da infância", mas também reconhece que a infância é um lugar-filosófico único, porque a "criança" é um dos grandes pedestais do verdadeiro conhecimento intuitivo. E reconhece o facto de que Pessoa nunca deixou realmente de ser uma criança (talvez por isso não necessitasse da saudade) e a própria "insinceridade artística" é uma coisa de criança-adulto! A essa própria inconsciência da vida real o que lhe permite afinal operar, fluidamente, os seus raciocínios paralelos. Tudo isto resulta no facto da infância desempenhar um grande papel no Pessoa adulto (e no Pessoa-pensador adulto). E, como reforça López, o maior exemplo da "criança-adulto" é Caeiro, o Mestre: onde ser é apenas ser-infantil (sem pensar). Um grande ensaio que reforça a necessidade de olharmos duas vezes para a afirmação de Pessoa quando ele renega a importância da sua própria infância na sua obra.

O ensaio seguinte é do autor Miguel Montagut, onde o mesmo analisa comparativamente Campos e Whitman. Trata-se de um ensaio que me pareceu "menos filosófico" do que os precedentes, mas não deixa de ser interessante, sobretudo para quem uma maior curiosidade de pormenor em ver Whitman ao lado de Campos (e de Caeiro), pois fala-se muito da influência mas pouco se escreve em pormenor sobre a mesma.

Pablo López e Fernando Quindós (os compiladores da edição) apresentam um ensaio em co-autoria, sobre o tema da viagem em Fernando Pessoa. Os autores abordam desde logo uma crítica que eu fiz na altura ao Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, onde Leyla Perrone-Moisés diz que Pessoa tinha feito apenas uma viagem à África do Sul. É certo que viajou pouco, mas viajou um pouco mais do que isso... fala-se ainda da viagem ao Porto, e do filme de Oliveira (mas sem se citar as quase certezas da sobrinha de que não é Pessoa). Mas das viagens físicas, os autores passam para as viagens imaginadas e para a viagem entre pensar e sentir, onde Pessoa se torna um estrangeiro dentro de si mesmo e alguém para quem viajar passa a ser eminentemente uma atitude da inteligência. A própria heteronímia é vista como uma "viagem óntica".

Fabrizio Boscaglia fala de seguida de Omar Khayyâm (e a literatura Persa) e Pessoa. Sabe-se que Pessoa fez muitos Rubaiyats, poemas típicos daquela literatura. Este ensaio, como outros nesta edição, fazem já uma leitura muito intensa entre a marginália Pessoa e os seus escritos, o que os torna muito refrescantes, dando uma perspectiva nova sobre o processo criativo do autor. É nomeadamente mostrada a tendência de Pessoa ser atraído por certas passagens, para depois escrever sobre elas - no que teve a ver aqui com a filosofia de Khayyâm, que ele pretendia analisar. O autor propõe ainda a análise comparativa entre os Rubaiyat e o "Livro do Desassosego", no que ambos têm de passagens místicas.

Guiancarlo de Aguiar no ensaio seguinte traz-nos uma análise Junguiana de Pessoa. O autor pretende (através de um ensaio muito profundo e algo difícil de ler, sejamos honestos) identificar as quatro funções psíquicas: sentir, perceber, intuir e pensar; para cada um dos quatro heterónimos. A correspondência efectuada é, convenhamos, algo polémica, mas caberá a cada leitor tirar as suas próprias conclusões. É um texto que merecerá da minha parte uma releitura com mais tempo, certamente.

Nuno Ribeiro trata de Nietzsche e Pessoa. Nomeadamente a temática Nietzschiana do "Verkleidung", do animal vestido, que aparece no também no "Livro do Desassossego". O autor propõe-nos, num ensaio demasiado curto - na minha opinião - uma interpretação comparativa entre os projectos críticos dos dois pensadores acima referidos, nomeadamente do ponto de vista Pessoano da construção do novo paganismo. Ou seja, a construção da tal "segunda natureza", que advém das instituições humanas e que se sobrepõem ao homem, como verdadeiras "roupas sociais". Uma teoria interessante, mas algo incompleta e que merecia maior desenvolvimento.

Daniel Duarte escreve também sobre Nietzsche, mas agora de um ponto de vista mais propedêutico. Não me pareceu um ensaio muito claro, com um fio condutor muito certo, mas é um dos outros textos que vai merecer uma leitura mais atenta da minha parte.

O livro termina com o ensaio de Paulo Borges sobre a multiplicidade em Borges e Pessoa. Ambos são apresentados como demiurgos da plena subjectividade humana, prontos subjectivá-la ao extremo de não restar nada - nem dela nem deles próprios nela. "Posso imaginar tudo, porque não sou nada", acaba por resumir a aventura poética (e existencial) dos dois grandes génios literários. A experiência do "eu" solitário e, simultaneamente, a tradução do vazio ontológico numa realidade interior multiplicada é exemplarmente ilustrada por Borges.

À maneira de resumo final, podemos dizer que esta edição em muito prestigia o state of the art dos estudos filosóficos Pessoanos (embora sofra, numa análise final, um pouco das tantas vezes que alguns dos autores dos ensaios se citam uns aos outros). Recomendamos vivamente que a adquiram se têm o mínimo interesse no estudo da filosofia em Pessoa, que tanto tem sido relegada para uma segunda posição mas que, com edições deste calibre, só pode melhorar no futuro.

Este livro pode já ser adquirido online na Editoral Manuscritos.

Agradecimentos ao Professor Pablo Javier Pérez López pelo envio de um exemplar para análise.