quinta-feira, novembro 25, 2010

Dia 3 do II Congresso Internacional Fernando Pessoa



Eis as minhas impressões do dia 3 do II Congresso Internacional Fernando Pessoa. Foi o último dia do Congresso e deixo desde já os meus parabéns à organização do mesmo (embora com algumas ressalvas que guardo para o fim das minhas observações).


Pessoa e o Ultraísmo

O último dia do Congresso abriu com uma comunicação de António Delgado, sobre a relação de Pessoa com os poetas modernistas de Espanha, nomeadamente com um (agora) desconhecido de nome Adriano del Valle.

Pelo que foi dado a entender, o contacto de ambos não foi extenso - pretensamente ele apenas conheceu Pessoa de passagem em 1923 quando veio de lua-de-mel a Lisboa - mas del Valle, aproveitando-se da fama de Pessoa, expandiu as suas memórias com o passar dos anos. O público riu-se com o facto de del Valle em entrevistas passar de dizer que encontrara de passagem Pessoa (nos anos 30) para nos anos 40/50 já dizer que, nas 3 semanas que esteve em Lisboa ter trabalhado com ele 3 horas por dia em traduções de poemas de Sá-Carneiro...

Foi uma comunicação interessante, embora no final não se percebesse bem o interesse de falar de del Valle... mais valia talvez ter abordado a questão de uma forma mais genérica - do contacto com o modernismo Espanhol.

Fernando Pessoa e António Ferro

José Barreto é sempre interessante e desta vez também não desapontou. Falou sobre António Ferro e da relação deste com Pessoa, metendo pelo meio muitos dados interessantes sobre o ambiente político da época. É de salientar que, embora Ferro tivesse sido editor do Orpheu, nunca foi verdadeiramente um modernista activo - foi-o só por moda e não por modo, como indicou Barreto.

Muito interessante o facto de Ferro ter mesmo "gozado" com os modernistas em diversas entrevistas, enquanto se punha ao lado de um modernismo mais temperado - o de Marinetti, que entretanto tinha sido aceite pelo regime de Mussolini. Barreto não se esqueceu, no entanto, no papel de Ferro na gestação (e premiação) da Mensagem. Ficou bem claro (sobretudo com a menção de um artigo que surgiu a seguir ao prémio e que dizia qualquer coisa como: "a Mensagem é um toque de clarim anunciando o Estado Novo") que Pessoa não alinhava minimamente no que "estava na moda" ou em facilitismos, ao ponto de se perceber melhor porque ele logo de seguida dispara um artigo em defesa da maçonaria - um claro desafio a Ferro e a Salazar, à laia de cuspidela na cara. Claro que depois Pessoa foi calado e teria passado "as passas do Algarve" se continuasse vivo (talvez se tivesse exilado?).

Nota ainda para - no espaço de debate - a intervenção de Teresa Rita Lopes, indicando falhas na comunicação. Barreto disse que Ferro e Pessoa deixaram de ser amigos em 1915, quando Ferro se demarca da carta de Pessoa à Capital sobre o acidente de eléctrico de Afonso Costa. Teresa Rita Lopes indicou - e bem - que na realidade a carta era de Campos e não de Pessoa e que a renúncia dos amigos não era dirigida ao demiurgo mas ao heterónimo... um pormenor delicioso, mas que fez corar um sempre imperturbável Barreto.

Rita Lopes teve - pode dizer-se - uma presença interventiva neste Congresso, qual "anjo da morte" preparado a cair sobre os conferencistas sem o menor aviso :)

Pessoa e Joyce

Inês Pinto Basto falou de Pessoa e Joyce. Ou melhor, falou de Pessoa e de Joyce. Sinceramente não percebi a relação entre os dois, pelo menos pelo que a conferencista nos disse. O ensaio estava magistralmente bem escrito, é verdade, mas da relação entre Pessoa e Joyce nada. Ficamos pelo menos a saber que ambos presavam muito o papel das flores nas respectivas obras, e pouco mais... já em 2008 Pinto Basto tinha trazido o mesmo tema e parece-me que será altura de o mudar para 2012, digo eu.

Mariana de Castro

Mariana de Castro trouxe uma intervenção muito interessante, mesmo a mais interessante do dia, na minha opinião. Falou da sua interpretação do poema de Álvaro de Campos "Se te queres matar..." à luz da influência de Shakespear e com Sá-Carneiro pelo meio.

Basicamente comparou o poema de Campos ao famoso monólogo de Hamlet "To be or not to be", defendendo que Pessoa ousou modificar (e melhorar?) esse mesmo texto do Bardo. Muito interessantes os argumentos utilizados, que convenceram a plateia e deram uma nova perspectiva a este texto que a partir de agora terá necessariamente de ser lido a esta nova luz.

Mas Mariana de Castro foi mais além e propôs que o objecto do poema seria Mário de Sá-Carneiro, visto que a data do poema era do 10.º aniversário da morte daquele. Com esta visão já muitos discordaram, mas não deixou de ficar a hipótese no ar.

Leitura esotérica do Fausto de Pessoa

Piero Ceccucci apresentou uma comunicação dedicada à leitura esotérica do Fausto. Para ele é o esoterismo a chave para desvendar a leitura do poema inacabado de Pessoa. No entanto não ficou claro exactamente de que modo isso poderia ser feito. As referências de Ceccucci foram apenas superficialmente esotéricas - o verdadeiro esoterismo é feito sobretudo de referências explicitamente simbólicas, que precisam de ser analisadas e dispostas...

É certo que ele citou alguns poemas esotéricos, mas não percebi a relação entre eles e o Fausto além de serem ambos esotéricos. A única nota interessante foi o pormenor do Fausto poder ser um poema all incompassing, onde poderíamos encontrar sub-textos relativos a toda a obra Pessoana.

Alguém sugeriu ainda que a personagem Maria poderia ser comparada a Caeiro - mas eu acho que todas as personagens femininas em Pessoa são, por essência, vazias como Caeiro, basta olhar para Lídia...

People who cannot find...

Zbugniew Kotowicz falou do Sebastianismo de Pessoa. Ou melhor, tentou falar do Sebastianismo de Pessoa... devo dizer que este painel (Kotowicz e Ceccucci) que pretendia ser um painel sobre "sentidos ocultos" foi extremamente fraco. Ambos os conferencistas falharam em trazer verdadeiras análises esotéricas (basta ler os livros de Dalila Pereira da Costa ou de Yvette K. Centeno para saber o que elas podem ser no âmbito Pessoano e qualquer uma delas os teria envergonhado).

Kotowicz conseguiu ser ainda mais vago (e ainda por cima impreciso) do que o seu colega Italiano. Disse algumas barbaridades, como o Sebastianismo não ser assim tão importante na obra de Pessoa (só é o tema principal do seu principal livro acabado em vida), ou então que o Sebastianismo tinha preso Pessoa...

Onésimo Teotónio de Almeida interviu no espaço do debate e lá "impingiu" novamente a sua ideia da influência de Sorel na Mensagem (parece haver uma grave necessidade de Onésimo falar repetidamente na sua ideia original, quer por originalidade flagrante ou porque ninguém o levou a sério o suficiente). Mas numa coisa ele tem razão, o Sebastianismo de Pessoa era original, na medida em que era racional. Mas disso Kotowicz nada sabia. Incompreensível o porquê de ter sido convidado (a menos que tenha tido um dia mau, o que é possível, mas não é desculpável). É questão de perguntar, onde estava Teresa Rita Lopes quando precisávamos dela!

Do outro lado do espelho

Fernando Cabral Martins falou da edição recente da obra ortónima completa de Pessoa (julgamos que na Assírio). Muito interessante o facto de Martins ter referido que na obra ortónima agora apresentada se ver claramente a evolução do processo criativo dos heterónimos - nomeadamente os tais "poemas de índole pagã" que estiveram na raiz do nascimento de Reis e da influência dos livros de Sá-Carneiro na poesia de Pessoa nos anos de 1913 e 1914.

Acho interessantíssima esta análise, que penso foi sugerida por Quadros já há muito tempo (falei dela no meu artigo sobre o Dia Triunfal) - de ter sido Sá-Carneiro a desempenhar um papel decisivo no aparecimento dos heterónimos, sendo a influência dos poemas do seu amigo decisivos no "segundo acto da execução ritual” da ligação de Pessoa ao movimento da Renascença e à sua libertação definitiva enquanto poeta original e criador de novos mundos poéticos, muito para além do saudosismo. Fiquei com grande curiosidade em ler a obra ortónima assim, em sucessão completa.

Crítica textual em Álvaro de Campos

Maria Bochicchio trouxe uma análise filológica, extremamente técnica, analisando algumas porções de poemas de Campos e respectiva classificação. À maneira da apresentação de Pizarro num dia anterior, foi uma interessante janela para o trabalho dos especialistas, que, embora menos original que outras comunicações, não deixou de ter o seu fascínio.

Num aparte a conferencista apresentou algumas peças inéditas de Carlos Queirós (o sobrinho de Ophélia). Muito interessante uma conferência de Queirós, de 1940 (só 5 anos depois da morte de Pessoa) onde ele defendia que Pessoa "fingia que fingia". Devo dizer que senti um arrepio quando ouvi isto, porque confirma algumas coisas que eu próprio já pensei a este respeito. Que o jogo do fingimento em Pessoa é ele próprio um fingimento - que então se auto-anula...

Para Queirós os heterónimos eram "fantasmas" e ele escreveu que o preferido de Pessoa era Campos - sorria sempre que falava dele e dizia que ele desempenhava um papel de "Mefistófeles" na sua vida. Dá que pensar.

Passagem das horas

Orietta Abbati falou sobre a ode inacabada "Passagem das Horas". Seria uma ode prevista para o número 3 de Orpheu, mas que Pessoa não conseguiu acabar, tendo ficado extremamente fragmentária.

Interessante o pormenor indicado pela conferencista de Sá-Carneiro, numa carta a Pessoa, ter dito que depois da "Ode Triunfal" nada mais poderia ser escrito sobre a modernidade. Sá-Carneiro teria então morto - simbolicamente - todas as grandes odes sucessivas, e nomeadamente a mal fadada (ainda que magnífica mesmo assim) "Passagem das Horas".

Notas finais sobre o Congresso e respectiva organização

Quero deixar uma nota final sobre o Congresso. Falando nos pontos positivos, penso que o novo espaço foi bem melhor do que o de 2008, mais espaçoso e confortável. A equipa da Casa desdobrou-se bem e via-se que estavam empenhados em que tudo corresse pelo melhor. Alguns conferencistas de grande qualidade foram convocados e houve momentos realmente interessantes. É de louvar também o aparecimento de uma nova revista, que espero tenha sucesso.

Pela negativa alguns conferencistas que apareceram aparentemente aconselhados por alguns Pessoanos e sem grandes resultados práticos. Parece-me muito estranho (ou talvez não) que se convidem pessoas sem análise prévia do que vai ser apresentado - suponho que foi o que aconteceu. Porque não um conselho prévio que aprove quem é convidado? E porque não apostar em pessoas novas fora do círculo académico tradicional? Uma nota negativa também para a maneira atabalhoada como Inês Pedrosa interrompia os conferencistas para lhes dizer que estavam para além do tempo alocado, ou como depois cortava a palavra às pessoas no espaço de debate. Uma ideia para 2012: mais um dia, mais tempo por conferencista e menos conferencistas.