quarta-feira, novembro 24, 2010

Dia 2 do II Congresso Internacional Fernando Pessoa



Eis as minhas impressões do dia 2 do II Congresso Internacional Fernando Pessoa. Devo dizer que infelizmente não tenho tido a oportunidade de presenciar todas as sessões (devido aos sucessivos atrasos), pelo que apenas deixo o testemunho relativo às que presenciei directamente:

António Botto e Pessoa

Anna Klobucka prometia uma apresentação muito interessante, visto que Botto era um dos poetas contemporâneos de Pessoa que gerava em volta de si mesmo maior polémica. No entanto ficou um pouco aquém do esperado.

Foi dito que a opinião de Botto sobre Pessoa era a de que ele era o artista e que o poeta verdadeiro (e mais talentoso) seria Sá-Carneiro, mas é uma opinião que já era conhecida e comum a alguns dos que acompanhavam aquele círculo criativo. A única novidade veio do pormenor revelado que o espólio inédito de Botto possui cerca de 44 poemas cuja temática é precisamente Pessoa - alguns deles lidos por Klobucka.

Foi pena não terem sido abordados temas mais polémicos, sobretudo a pretensa proximidade física especulada por alguns entre Botto e Pessoa - nomeadamente relacionada com o que foi dito por Jorge de Sena a respeito deste assunto.

Pessoa e Cesário Verde

Hélder Macedo falou da grande influência de Cesário Verde na obra de Fernando Pessoa, nomeadamente em Campos e Caeiro. Foi, na minha opinião, uma comunicação algo morta, mas que mesmo assim teve alguns momentos de interesse, nomeadamente a referência à influência de Cesário mesmo depois do encontro de Campos com Caeiro - se bem que é discutível a que ponto a influência referida (em relação ao poema "Opiário") poderia ser analisada de forma diferente tendo em conta como o poema foi retro-produzido (enquanto poema simbólico de um já futurista).

Pessoa e Leopardi

António Cardiello trouxe uma apresentação cheia de filosofia, mas infelizmente da pior espécie - a chata e mal apresentada. A leitura prolongou-se por demasiado tempo e recorrendo a uma interminável série de citações. A certa altura Hélder Macedo - companheiro de mesa - adormeceu...

Cardiello é capaz de bem melhor. Aliás, saiu há pouco tempo um livro, que vamos analisar aqui em breve - "O Pensar Poético de Fernando Pessoa" - que inclui comunicações no âmbito de um colóquio de filosofia dedicado a Pessoa em que Cardiello tem uma apresentação de muito maior qualidade do que trouxe ao Congresso.

Quantas Pessoa tem Fernando

Maria Lúcia dal Farra teve uma apresentação à volta das Pessoas que intervieram na relação entre Pessoa e Ophélia. Interessante a análise do papel de Campos, de Pessoa e de A.A. Crosse na relação, e das próprias reacções de Ophélia enquanto amante frustrada (que dal Farra aventa pudesse mesmo ter sido vista por Pessoa como sendo a Olga dos seus textos automáticos). Nada de exactamente novo, mas uma comunicação muito bem articulada e comunicada com grande facilidade e fluidez.

Interessante também a nota de que só Pessoa parecia escrever Ophélia com "ph", reforçando a ideia de que ele tinha abordado a sua namorada também devido à natural confusão com a peça de Hamlet - isso mesmo foi falado a propósito da famosa cena do primeiro beijo entre ambos.

A mulher na obra de Pessoa

Luis Gruss falou do papel da mulher na obra de Fernando Pessoa. Reforçou ao longo da sua apresentação que os escritores não escrevem acerca das suas experiências... algo no mínimo discutível, mas certamente ainda assim subjectivo. Isto para de certo modo "defender" que certos artistas (Pessoa, Kafka) se afastavam da vida com medo que a vida interferisse demasiado nas suas "missões pessoais". Em que medida esses medos eram medos de intimidade não foi analisado pelo conferencista...

Não me pareceu uma conferência brilhante, longe disso, e o conferencista destoou um pouco dos restantes, talvez pelo seu afastamento do meio académico estritamente Pessoano - houve alguma insistência na expressão "oficinas de escrita", que me deu certos arrepios associados à profissão temerária (e cobarde?) de "ensinar a escrever" (mas confesso que é algo pessoal).

Pessoa(s)

Rodolfo Alonso foi o segundo Argentino do dia a falar (depois de Gruss) e trouxe o testemunho de um tradutor de Pessoa para Castelhano, na América Latina. Comunicação muito emotiva e interessante, embora sem especial interesse técnico para quem assistia. Mas não me deixou de tocar a maneira como Alonso se mostrava comovido (e talvez mais honrado do que outros supostamente mais insignes doutores) por estar ali presente.

Mundividência Pessoana

Onésimo Teotónio de Almeida falou genericamente (e a uma velocidade alucinante e disparatada) sobre a "mundividência Pessoana". Devo dizer que mal percebi o que foi dito, tal era a velocidade a que a comunicação foi lida - um real disparate, porque se é para se manter dentro do tempo alocado mais valia cortar parte do que seria lido do que ler demasiado rapidamente tudo...

Almeida, com background em filosofia, referiu que Pessoa era um racionalista empírico em relação ao passado, mas um pragmático (à William James) em relação ao futuro, o que achei de grande interesse. Reforçou também que Pessoa prezava acima de tudo a liberdade individual e a tolerância (o que explica muitas das defesas públicas que fez ao longo da vida, correndo mesmo alguns riscos).

Acabou por referir a teoria do mito Pessoano como uma teoria original - de um tipo de Sebastianismo racional muito próprio.

Épica da modernidade

Perfecto Quadrado segui o (mau) exemplo de Onésimo T. Almeida e falou também demasiado rápido (era preferível que o Congresso tivesse começado a horas, por exemplo...). No entanto a conferência foi muito interessante, em redor do poema épico de Pessoa em face a outros, nomeadamente ao de Camões.

Chegou-se à conclusão que Pessoa tinha em mente um plano político-poético, em que o poeta estaria no centro de tudo, criando pela palavra uma nova realidade, que tiraria a Europa da decadência em que se encontrava. Era um novo paradigma épico, do poeta enquanto poeta-arquitecto. Muito interessante. A distinção final foi feita qualificando a épica de Camões como sendo uma épica cósmica enquanto a épica de Pessoa seria uma épica caótica.

Pluralidade dos Deuses

Steffen Dix trouxe uma interessante apresentação sobre o paganismo e o sensacionismo. Sendo que Caeiro fundava as suas teorias numa filosofia das sensações e ele próprio incorporava (consubstanciava) o novo paganismo, o neo-paganismo seria baseado no sensacionismo.

Houve quem perguntasse então como teria surgido Caeiro? A resposta foi simples e complexa: Caeiro era apenas uma das suas próprias sensações (usando as palavras dele mesmo).

Um mestre entre cacos

Teresa Cerdeira falou longamente sobre Pessoa-despedaçado. Uma apresentação interessante, se bem que demasiado floreada para o pouco conteúdo que continha. No entanto ficaram alguns pormenores: se Pessoa perdeu a sua unidade, o mundo à sua volta também a perdeu; ao ponto de ele não reconhecer por exemplo na cidade de Lisboa senão cacos da cidade de Lisboa, como apenas reconhecia cacos de si mesmo. Os próprios heterónimos, que não eram mais do que cacos do Pessoa-demiurgo, não podiam ser inteiros em si mesmos, mas antes aprendizes dos seus próprios processos individuais.

Teatro e Engodo

O momento mais polémico do dia (e do Congresso até agora) esteve reservado para a comunicação de Pierre Costa. Parecia uma comunicação simples, e foi realmente útil ouvir a descrição da recepção de Pessoa em França e da maneira como ele foi (e está) a ser transposto para o teatro. Mas no final Teresa Rita Lopes interpelou o conferencista apontando erros e omissões na comunicação. Basta dizer que o ambiente ficou de cortar à faca, o que mostra mais uma vez como há uma incompreensível mesquinhez no mundo académico em volta de Pessoa, com lutas de bairro (e de território) que realmente não parecem próprias ou respeitadoras do génio do poeta - sim, porque estamos a falar dele e não propriamente acerca dos egos daqueles que falam dele...

Restaram duas boas notícias: a excelente recepção do "Livro do Desassossego" em França (vendeu já 185.000 exemplares) e o facto da palavra "intranquilité" (a tradução encontrada para "desassossego" em Francês) ir entrar no dicionário da academia da língua Francesa em 2012.

Uma nota final para o facto de Inês Pedrosa ter indicado que todas as conferências serem publicadas progressivamente nos próximos números da nova revista Pessoa - que foi lançada no primeiro dia do Congresso. Uma boa notícia para quem - como eu - não consegue assistir a todas as sessões.