terça-feira, novembro 23, 2010

Dia 1 do II Congresso Internacional Fernando Pessoa



Tive o prazer de assistir hoje e ao primeiro dia do II Congresso Internacional Fernando Pessoa, que está a decorrer no Teatro Aberto, em Lisboa. Aqui ficam as minhas impressões sobre as apresentações deste primeiro dia e da organização em geral:


Conferência inaugural por José Miguel Wisnik


O conferencista - que além de especialista em literatura é músico - está a preparar um disco onde musica pessoa, e por isso mesmo falou da relação de Pessoa com a canção Brasileira. Foi uma apresentação algo opaca e demorada, com muitos momentos em que claramente Wisnik se deixou levar pelo tema (que claramente domina), mas que fugiu, e de que maneira, de Pessoa, para se concentrar mais na própria dinâmica da cena musical popular no Brasil.

Não deixou de ser interessante, à sua própria maneira, mas demasiado demorado e pouco interessante para uma plateia como a que estava presente.
Ainda assim foi interessante perceber alguns pormenores, particularmente a influência da ida de Agostinho da Silva e a maneira como ele influenciou o fortalecimento de um sebastianismo Brasileiro que influiu, por sua vez, na melhor música popular Brasileira, com particular destaque para a obra de Caetano Veloso.

Fernando Pessoa e a literatura dita popular

Arnaldo Saraiva falou de Pessoa e da literatura popular. O prof. vindo do Norte é claramente uma figura muito singular, sobretudo pelo seu facias fechado e duro, mas que rapidamente mostra a sua personalidade quando começa a falar. E - em boa maneira Nortenha - sem grandes papas na língua, dizendo as coisas como têm de ser ditas.

Foi por isso sem espanto que se ouviram alguns impropérios em calão do mais baixo, quando o tema abordado era precisamente a maneira como Pessoa afinal não era apenas um autor de alta cultura, mas que também tinha sido influenciado por diversas correntes populares.

Interessantes os pormenores de alguns professores de Pessoa no Curso de Letras terem sido estudiosos da cultura popular e também do trabalho de Pessoa na colação de provérbios para uma edição bilingue que chegou a ter encomendada mas que nunca foi realizada. Aliás, Saraiva provou (e o Ferrari reforçou na sua apresentação) que Pessoa tinha grande apreço pela cultura popular, nomeadamente pelos provérbios e que promovia mesmo as figuras populares na sua poesia (as ceifeiras, as lavadeiras, os empregados de comércio, etc).

Destaque para um pormenor engraçado quando Saraiva cantou um pouco de uma canção popular - pegando na piada que teve a intervenção inaugural de Wisnik, que cantou quase uma canção completa de Veloso (com grandes aplausos da plateia).


Edição Crítica: Série Menor


Ivo Castro, na sua apresentação, começou mesmo por assegurar que não ia cantar.

Mas a primeira grande notícia do Congresso foi mesmo a que o prof. deu relativamente ao facto de estar prevista a saída da Série Menor da Edição Crítica para 2011.

Para quem não sabe, a Série Menor é basicamente uma versão mais simples, sem pormenores técnicos, mais acessível ao vasto público. Estas edições terão a ortografia modernizada e começarão pelo "Livro do Desassossego", seguindo-se a obra de Reis.
A edição traz alguns desafios, que foram discutidos. Nomeadamente a modernização da ortografia de algumas palavras, que podem levantar problemas de métrica e ritmo ("sperei" e "esperei" por exemplo). Que textos figurarão, será outro problema.

Por fim foi também anunciado que a Série Maior será em princípio disponibilizada online, provavelmente em print-on-demand. Uma grande notícia para quem procura alguns livros já esgotados.

Nova edição dos Provérbios

Patrício Ferrari partiu da intervenção de Arnaldo Saraiva para falar da nova edição dos Provérbios coligidos por Fernando Pessoa.


Muito interessante a sua exposição de todo o processo que levou Pessoa a ter a seu cargo este projecto inausitado. Nomeadamente o facto de ter sido Pessoa a ter a iniciativa de propor a edição ao editor Inglês (que lhe respondeu positivamente, mas que nunca lhe chegou a pagar...). Seja como for ficou o trabalho final, bem elaborado e cujos passos foram detalhadamente mostrados por Ferrari, nomeadamente as fases de escolha, selecção e apuramento dos provérbios.


Extremamente interessante a referência aos Pickwick Papers - nomeadamente aos Wellerismos; que me bateu bastante fundo porque acabei o livro (no original) há pouco tempo e posso compreender de certo modo o fascínio de Pessoa por aqueles ditos fantásticos do Sam Weller (e do pai do Sam Weller também).

Desassossegos

Na mesa dedicada aos Desassossegos, Teresa Rita Lopes e Jerónimo Pizarro falaram sobre o "Livro do Desassosego".

Rita Lopes falou (ou melhor, leu) sobre a autoria do Livro, nomeadamente sobre os dois autores principais - Vicente Guedes e Bernardo Soares, e que diferenças havia entre eles. Eram realmente opostos em muitas coisas, nomeadamente Guedes aristocrático e dandy, enquanto Soares era pobre e solitário. Interessante o facto da pré-história de Guedes não ter indícios da transição para a autoria do "Livro", sendo que ele começa como contista e agressivo revolucionário.

Pizarro falou da sua recentíssima edição do "Livro", trazendo muitos pormenores técnicos que explicaram a necessidade de uma nova edição do mesmo.

Uma interessante visão filológica de pormenor que nos levou para o interior do funcionamento de um processo intrincado de edição Pessoana. Foi particularmente relevante ver como erros eram levados sucessivamente de edição em edição, muito provavelmente por falta de rigor científico (nomeadamente na consulta e análise - muito complicada - dos originais). Mais uma vez ficou bem demonstrada a dificílima letra manuscrita de Pessoa, que é em muitas alturas quase impossível de decifrar.

Numa nota pessoal tive pena que fosse retirada da edição uma frase de que sempre gostei bastante: "Deus é bom, mas o Diabo também não é mau". Afinal, pela análise do original, vê-se que está fora do "Livro"... mas não deixa de ser de Pessoa à mesma. Ao menos isso :)

Verdade e Artifício


António Feijó e Richard Zenith protagonizaram, quanto a mim, as duas conferências mais interessantes do dia.

O primeiro falou das musas e o segundo do poema "Sino da minha aldeia".

António Feijó teve uma intervenção brilhante e divertida, embora a roçar o disparate em alguns pormenores. Mas deixamos passar visto que no final ficámos com uma ideia bem original: que Pessoa criou a sua própria musa interna na figura de Caeiro. Feijó propôs um nome para a maneira como Caeiro depois deu origem aos outros heterónimos: engendramento xamânico.

Fascinante a comparação das "Notas para a recordação..." com as primeiras estrofes do "Antinous". Em ambos - defendeu Feijó - há a construção de algo fixo, branco, uma estátua, uma musa interna. Caeiro construído para ele próprio influenciar os outros heterónimos; numa espécie de dupla ficção interna... Mais uma forma de perceber a vida curta de Caeiro, claramente sacrificado pela sua função dentro do sistema heteronímico Pessoano.

Zenith, por sua vez, mostrou mais uma vez o seu domínio do espólio e o seu conhecimento em redor do mesmo, ao tentar provar que o "Sino da minha aldeia" não era um poema de saudade da infância, mas antes um reaproveitamento de temas já tocados por poetas menores da época de Pessoa, nomeadamente pelos ultra-românticos Augusto Palmeirim e João de Lemos.

Ficámos convencidos pela explicação de Zenith quanto a este poema em particular. Mas não tão convencidos ao ponto de aceitarmos que realmente Pessoa não tinha nenhumas saudades da infância (embora ele tivesse realmente mais "saudades do que não foi") e que tudo eram apenas "atitudes literárias", como o poeta explicara em carta a Gaspar Simões.... há no entanto que dar crédito à investigação de Richard Zenith, muito bem fundamentada.

Uma nota final para a organização, esmerada e competente. Houve alguns atrasos, mas mais por "culpa" dos conferencistas que insistem em não respeitar os tempos que lhes são dados. O espaço do Teatro Aberto é muito confortável e amplo, embora os acessos não sejam os melhores (especialmente num dia como hoje, com muita chuva).