quarta-feira, outubro 20, 2010

"Parecia não pisar o chão " - Uma Apreciação Crítica



Carlos Taibo - o autor do livro "Parecia não pisar o chão", que na realidade é uma colecção de 13 ensaios Pessoanos - não é certamente um nome imediatamente reconhecível dentro do fechado (e por vezes impenetrável) mundo dos investigadores Pessoanos. Talvez simplesmente porque é o seu primeiro livro sobre Pessoa, e também porque Carlos Taibo não se dedica aos estudos literários - é Professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid.

Mas por vezes os mais inesperados resultados surgem precisamente por parte de autores outsiders do mainstream mundo Pessoano. É claro que Taibo possui a virtude de estar fora deste mundo e de, simultaneamente, ser um profundo conhecedor desse mesmo mundo, como apaixonado de Pessoa, da sua obra e vida. Foi essa paixão que o levou à escrita da presente edição e a abordar "não literariamente" o poeta.

Os 13 ensaios (cabalisticamente o 13 é um número adequado a uma análise totalitária - Jesus e os 12 discípulos, ou a roda do Zodíaco com um passo extra representando o eterno retorno) rodam em torno de diversos assuntos, mas sempre muito "mundanos". Ou pelo menos era essa a intenção inicial do autor. A verdade é que ele deixou, progressivamente, contaminar-se pela literatura e, ao longo do livro, cada vez mais se apoia na poesia e cada vez menos nos factos.

Para quem não conhece muito bem as obras editadas ao longo dos anos, o presente livro constitui um precioso auxiliar, sintético dentro do possível, das opiniões mais destacadas de variadíssimos autores e biógrafos. Enquanto livro de referência não podemos deixar de o recomendar, sobretudo a quem está a entrar no mundo de Pessoa ou ainda para aqueles menos dados a adquirir todas as obras (e são muitas) que vão saindo sobre o poeta. Não se trata de um dicionário, mas serve optimamente como obra de referência.

No entanto tem alguns lapsos, que não podemos deixar de indicar. No ensaio sobre a família de Pessoa, Taibo fala da falta de estudos sérios sobre a mesma. É verdade que não existem muitos, mas há um excelente, sobre o pai de Pessoa, intitulado "Joaquim Seabra Pessoa ou o Engenho Sensível" de Manuel Matos (edição da Fundação Engenheiro António de Almeida). No mesmo ensaio diz o autor que Pessoa nunca contemplou o suicídio - trata-se de uma afirmação, quanto a nós, demasiado assertiva, tanto que se conhecem diversos textos onde Pessoa se debate com essa questão (e um deles é mesmo citado por Taibo, o conhecido "Se te queres matar, porque não te queres matar?"; outros encontram-se no Livro do Desassossego e na obra do Barão de Teive). No fim do mesmo ensaio, chama de superstição ao medo das trovoadas de Pessoa - quando é evidente que, conhecendo o que ele escreveu sobre o assunto, que se tratava de um pânico real e não uma superstição ("de várias fobias que tive guardo unicamente a assaz infantil mas terrivelmente torturadora fobia das trovoadas", diz ele em carta ao amigo Mário Beirão, em 1913). Penso que seria um medo que lhe vinha da infância perto da Savana Africana.

No ensaio sobre a vida quotidiana de Pessoa, Taibo fala do cinema dizendo que lhe parece que Pessoa não tinha qualquer interesse por essa forma de arte. Mas há um pequeno livro de Patrice Quillier "Courts métrages : Quatre arguments pour le cinématographe" que reune textos inacabados de Pessoa para o cinema.

No ensaio sobre o amor (e a vida sexual), não há qualquer referência a um facto que já aqui indicámos - e que pensamos decisivo - que Pessoa precisava de ser circuncidado. E embora fale da vizinha da Coelho da Rocha, parente de Jorge de Sena, não toca a possibilidade de Pessoa ter tido uma relação amorosa com ela (hipótese ventilada por alguns especialistas recentemente).

É apenas por vontade de precisão que trazemos estas "correcções" à baila. E se o fazemos é bom sinal de que apenas queremos acrescentar à já alta precisão da obra que ousamos analisar. Carlos Taibo apresenta-nos um livro nascido do amor por um assunto que também a nós é muito caro e nenhuma crítica seria mais justa do que a nossa, que pretende adicionar ao valor já grande da edição que nos chegou às mãos.

Uma nota para acabar: o facto do livro não ser num Português 100% perfeito. Pelo que entendi trata-se propositadamente de uma edição Galega, mas feita em Português. Notam-se alguns lapsos e uma construção frásica algo rígida, que perturba um pouco a leitura, sobretudo aos Portugueses.

Agradecimentos ao Prof. Carlos Taibo pelo envio de um exemplar para análise.
O livro "Parecia não pisar o chão" pode ser adquirido aqui.