quinta-feira, agosto 12, 2010

Entrevista com Jerónimo Pizarro



Temos o prazer de apresentar uma entrevista com o investigador pessoano
Jerónimo Pizarro. O Prof. Pizarro faz parte da Equipa Pessoa, responsável pela edição crítica da obra do poeta e foi o principal responsável pela recente edição crítica do Livro do Desassossego.

O Jerónimo tem sido um dos principais investigadores da obra de Fernando Pessoa nos últimos anos. Pode-nos dar um pequeno resumo acerca do seu primeiro encontro com Pessoa e se isso esteve directamente relacionado com a sua vinda para Portugal, como muitos outros que ao longo dos anos têm vindo para o nosso país por influência directa do poeta?


Conheci Pessoa em circunstâncias que poderão ter sido pouco certas: através do Livro do Desassossego (na versão espanhola de Ángel Crespo), perto de uma refinaria de petróleo na Colômbia (Barrancabermeja), enquanto descobria que o amor também é uma poderosa fonte de inquietação. Até certo ponto, a minha «salvação» foi Caeiro: a leitura ininterrupta de «O Guardador de Rebanhos», num relvado frio da Universidade Nacional de Bogotá, reconciliou-me com Pessoa e suscitou em mim uma curiosidade definitiva pela sua obra. Não é que eu não tivesse percebido que o Livro era algo espantoso, mas li-o numa cidade próxima da imaginação literária de um Guillermo Cabrera Infante, no meio de um bairro de engenheiros de minas e de um romance, e sempre fui muito mais sensível ao Pessoa tardio, da Tabacaria, do que ao Pessoa pós-simbolista, da Floresta do Alheamento; infelizmente, em muitas versões do Livro do Desassossego esses dois Pessoas coexistem, intercalados, o que não deixa de ser, a meu ver, um artifício algo violento.

A minha vinda para Portugal não esteve directamente relacionada com essas leituras iniciais, mas sim, em parte, a minha permanência posterior, num país que hoje sinto como um inesperado segundo lar.

Deve-se a si e alguns colegas seus (sobretudo Ferrari, Estibeira e Cardiello) o estudo da marginália Pessoana. Acha que esse estudo estava realmente negligenciado, tendo-se revelado (o pouco que ainda se analisou) como uma importante janela futura para estudos Pessoanos?

Não sei. Por um lado, uma das pioneiras da edição da obra pessoana, Maria Aliete Galhoz, foi a primeira a estudar a Biblioteca Particular de Fernando Pessoa; por outro lado, só recentemente foi publicado um poema inédito de Caeiro, que se encontrava na última folha de um livro dessa Biblioteca... Não acho que o estudo da Biblioteca Particular estivesse propriamente negligenciado, mas parece-me que só começou a ser privilegiado há muito pouco tempo.

A pensar no futuro, seria bom tornar a biblioteca de Pessoa num objecto de estudo mais frequente (em Outubro todos os livros devem ficar on-line, com o apoio da Vodafone) e concretizar a organização de um Congresso sobre Bibliotecas de Escritores (entre os quais se poderiam incluir diversos artistas e pensadores: Nietzsche, Freud, Pessoa, Woolf, Darwin, Borges, Coleridge, etc.), com o apoio da Casa Fernando Pessoa.

A edição da chamada "Obra Completa" de Pessoa certamente é uma tarefa longe de estar completa. Mas dos volumes do que foi editado até agora pela Equipa Pessoa o que destacaria? E que percentagem diria que falta para completar essa "Obra Completa"?

Preferiria não ser eu a destacar esse volume, não só porque pertenço à equipa que prepara a Edição Crítica de Fernando Pessoa, mas porque os juízos são falíveis. Com o tempo, por exemplo, descobri que livros que literariamente achava menos importantes, tal como as Quadras (1997), editadas por Luís Prista, sintetizavam um cuidadosíssimo trabalho filológico, que merecia ser resgatado. Penso que toda a Edição Crítica ainda está à espera de ser descoberta por um público mais amplo e estudada sem certo tipo de preconceitos.

De resto, devo confessar que não acredito numa Obra Completa, no caso de Pessoa: só num Arquivo Completo, que um dia poderia servir para preparar a publicação de diversos conjuntos de Obras Completas, mais ou menos críticas. As Obras Completas de um autor - e convém optar pelo plural - são uma espécie de antologia maior e quase um género literário.

Quais são os principais "tesouros" ainda inéditos na(s) arca(s) de Pessoa? Já teve oportunidade de ver por exemplo o romance autobiográfico de Eliezer Kamenezky (e a tradução de Pessoa para o Inglês) ou os originais das cartas de amor recebidas de Ophélia? Certamente que há muita prosa ainda inédita, e os trabalhos astrológicos?

Não sei se há "tesouros"... mas sim algumas páginas "preciosas", para utilizar uma metáfora afim. Já vi o romance de Kamenezky, mas não as cartas de amor, porque os originais foram vendidos e parece que estão no Brasil. De facto, ainda há muitíssima prosa inédita, que abrange textos - interessantíssimos - sobre política, estética, esoterismo e astrologia.

Que parte dessa obra inédita ainda está com a família do poeta? Há documentos muito importantes ainda com a família, ou eles eram principalmente o "dossier Pessoa-Crowley" recentemente adquirido pelo Estado? Já agora, algumas palavras sobre o polémico leilão Pessoa de 2008, à distância qual é a sua visão do ocorrido?


Às primeiras perguntas acho que deve responder o Estado, que colocou como uma das suas prioridades a aquisição dos documentos que ainda estão com os sobrinhos-herdeiros (e com outros particulares). No leilão de 2008 dispersaram-se objectos e documentos que a BNP - com o apoio da REN - não comprou (e que hoje não se sabe onde estão), mas acelerou um processo positivo: a classificação do espólio pessoano como um tesouro nacional.

Que obras prepara actualmente para edição sobre Pessoa e, em conclusão, qual é a sua visão sobre a obra de Pessoa, como encara o fenómeno heteronímico e que importância lhe dá para além do mero exercício literário?

Neste momento, continuo a preparação dos Cadernos, em vários tomos. Para mim, a obra de Pessoa é uma summa de Portugal e da modernidade estética. Não costumo dar um grande relevo ao fenómeno heteronímico, porque a maior parte dos escritos de Pessoa não estão assinados, porque evito associar a lucidez de Pessoa a um certo desequilíbrio e porque o próprio Pessoa, com a passagem do tempo, foi «caindo» na semi-heteronímia, isto é, em figuras «minhamente alheias», em que a distinção entre o «autor real» e as «figuras de sonho» se torna mais incerta e problemática. Além disso, a palavra «heteronimia» é póstuma.