quinta-feira, junho 03, 2010

Fernando Pessoa e o Sexo

Já há algum tempo que tenho vontade de escrever sobre este tema, embora sempre me tenha retraído, por respeito à memória de Fernando Pessoa, apenas falando marginalmente sobre o mesmo num ensaio que foi publicado no meu livro "À Distância de um Horizonte" e aí sobre a visão das figuras femininas na obra de Ricardo Reis.

No entanto, e face ao tanto que se diz (e disse) sobre a sexualidade Pessoana, penso que a minha achega não fará mossa de maior, sobretudo porque penso que posso ter algo a acrescentar, face ao que fui lendo (e já é bastante) da obra de Fernando Pessoa.

Mas começando pelo princípio.

Há basicamente duas versões dominantes sobre a sexualidade de Fernando Pessoa:
  • Ele morreu virgem e nunca teve uma experiência sexual, por incapacidade inata de se relacionar com mulheres.
  • Ele morreu virgem, mas porque era homossexual e nunca teve coragem de concretizar esse pulsão sexual com um homem.
Não penso, pessoalmente, que seja ofensivo dizer que Pessoa poderia ser homossexual. A questão, quanto a mim, não é tanto a da atribuição de uma preferência sexual, mas antes a da atribuição de um "apetite sexual". Lembro-me, quando toco este assunto, da cena de sexo que o David Soares tão bem desenhou para Pessoa e Ophélia no seu livro "A Conspiração dos Antepassados", das incríveis aventuras dos heterónimos no provocante "A Vida Sexual de Fernando Pessoa" ou da extraordinária poesia de "O Virgem Negra" de Mário Cesarinny. Embora ficções não documentadas (e afinal quem documenta os seus encontros sexuais?) elas reflectem bem um tabu no que toca aos estudos Pessoanos: a tendência dos estudiosos a considerar Pessoa uma figura quase imaterial e distante das falhas e dos desejos de que todos os homens sofrem e com os quais também se deliciam.

O grave não é tanto dizer que Pessoa morreu virgem, ou que era homossexual. O grave é sugerir que ele era amorfo, que não teve apetites sexuais, que não foi humano, afinal, como todos nós. O grave é despersonalizá-lo, fazer dele uma figura sombria que vagueava apenas pela vida como um dos seus poemas, profundo, mas inconsequente.

Ora, a primeira conclusão a que eu cheguei é que este homem tinha apetites sexuais. Sem dúvida. Se os concretizou completamente ou não, é outra questão. Mas é indesmentível que os teve e que teve contactos sexuais com mulheres. Basta ler certas passagens, de Pessoa a Ophélia:

"Estou pensando nas saudades que tenho do meu tempo da caça aos pombos" (5/4/1920)
"(...) «Corpinho de tentação», te chamei eu" (22/3/1920)
"gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos" (9/10/1929)
"queria ir ao mesmo tempo, à Índia e a Pombal" (24/9/1929)

A "caça aos pombos" é uma referência erótica óbvia (os "pombos" ou "pombinhos" seriam os seios de Ophélia). Sendo claro que houve real contacto sexual entre ambos, pelo menos "iniciático". "Ir à Índia" teria um sentido similar, com elevada conotação sexual.

Ophélia usa também esta referência:

"Os pombinhos mandam muitos jinhos para o Nininho" (27/4/1920)

(De notar que as cartas de amor de Ophélia para Pessoa foram censuradas pela família, apagando certas passagens - e mesmo duas cartas inteiras - por motivos que apenas posso atribuir a uma linguagem considerada imprópria e eventualmente sexual).

Se é verdade indesmentível que Pessoa teve apetites sexuais e que os apaziguou em certa medida, não é certo que ele os tenha concretizado. Isso nos é transmitido pela correspondência (conhecida) com Ophélia e recorrendo a um outro pormenor: Fernando Pessoa precisava de ser circuncidado. Sabemos isto por esta passagem do seu diário de 1906:

"Projectei uma viagem à Inglaterra. Não tenho dinheiro; há que arranjá-lo. Primeiro tenho de ser operado: circuncisão. De nada serve ir a países estrangeiros sem ter remediado este mal". (28/3/1906)

Julgo que Pessoa era afectado por um problema médico denominado fimose. Não entrarei em pormenores desnecessários, mas basta dizer que este problema originaria que Pessoa não pudesse ter relações sexuais sem um elevado grau de dor - o que esclarece o sentido da passagem anterior.

Não sabemos se ele alguma vez foi operado. Penso que haveria um qualquer registo da operação, e que essa inexistência presente prova cabalmente que ele nunca consumou uma relação sexual. Não quer dizer, no entanto, que ele não tenha demonstrado um apetite sexual normal, real, por mulheres, e talvez mesmo por homens (embora neste caso pareça mais idealizado do que real).

Além de Ophélia, conhecemos a sua admiração por outras mulheres. Há uma loura que povoa as memórias de Campos (provavelmente alguém que conheceu na África do Sul), uma outra rapariga que ele fala no diário e que encontrou num hotel, ainda a filha da Tia-Avó de Jorge de Sena (que vivia no 1.º andar da Coelho da Rocha) e a fulminante Hanni Jaeger... Motivos suficientes para desmistificar a imagem de um homem avesso ao género feminino. Recluso, sim, "onanista", certamente. Mas não um assexuado, uma figura de cera. E dizer isto é - não desrespeitá-lo - mas antes prestar-lhe a maior das homenagens, nomeá-lo junto de nós, nosso semelhante.