domingo, maio 23, 2010

"O Devir-Eu de Fernando Pessoa" - Uma Apreciação Crítica



José Gil, um autor bem conhecido da maioria dos Pessoanos, sobretudo pelo seu excelente livro "Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações", volta agora com um conjunto de 4 pequenos ensaios com o título conjunto de "O Devir-Eu de Fernando Pessoa", com edição a cargo da Relógio d'Agua Editores.

Ora, se a escrita de José Gil é uma escrita eminentemente filosófica, adaptada naturalmente à narrativa longa e espaçada de uma obra com mais de 200/300 páginas, estávamos especialmente curiosos para ler o seu pensamento quando necessariamente contido e espartilhado no formato de breve ensaio.

O que achei, desde logo, é que o livro acaba por não ter uma unidade que se poderá encontrar em outras obras de maior fôlego deste filósofo. Seria eventualmente uma inevitabilidade? Penso que não. O facto é que os ensaios não encontram grande ligação entre si. Mas analise-mo-los um a um.

O primeiro ensaio intitula-se "Devir Pessoa" e fala do efeito de atracção da poesia de Pessoa. Trata-se porventura do ensaio mais filosófico, intensamente ontológico - versando sobre o "Eu" ou sobre o "Ser" - e tratando de um assunto deveras interessante. José Gil tenta responder a uma pergunta que na realidade nos escapa a todos: porque é que Pessoa é tão fascinante? Acaba por responder a esta questão "sociológica" com uma teoria filosófica de grande interesse, que não desvendaremos, mas que achamos perfeitamente sensata.

O segundo ensaio, "A cidade e o quarto de Bernardo Soares", é um ensaio com menor profundidade, mas ainda assim com algum interesse complementar aos estudos que já lemos sobre Soares - e penso que o próprio José Gil já se tinha debruçado sobre ele. Analisa o papel da cidade (espaço-exterior) na escrita do semi-heterónimo Pessoano, colocando-a em perspectiva face ao espaço-interior.

"A máquina de amor de Ofélia-Fernando Pessoa" é, porventura, o ensaio mais interessante do livro, pela sua temática, mas não só. Trata-se de uma visão descomplexada da correspondência trocada por ambos e vem um pouco no seguimento da comunicação apresentada por Gil no Congresso Internacional Fernando Pessoa em Novembro de 2008. Aliás, comunicação que tinha o mesmo título. Nesta, como no ensaio, ele fala da relação de ambos em termos filosóficos, sobretudo de dinâmicas de desenvolvimento, de "devir emocional". Mas desta vez não referiu o testemuho de Fernando DaCosta, como tinha feito no Congresso.

No último ensaio, "O insconciente da sensação na Passagem das Horas", José Gil analisa filosoficamente a grande ode´de Álvaro de Campos, tentando dar continuidade ao seu trabalho de análise já efectuado na "Ode Triunfal" e na "Ode Marítima" (em outras obras de sua autoria), focando sobretudo a sua atenção no sensacionismo.

Face ao muito que se escreve sobre Pessoa, muito pouco se escreve "filosoficamente" sobre Pessoa, e uma das poucas pessoas que o pode fazer hoje em dia é precisamente José Gil. Trata-se de um pensador com uma grande clareza e capacidade de análise. Por isso é de louvar este livro e com certeza que o recomendaríamos a todos os interessados em compreender que a filosofia em Fernando Pessoa não é um aparte, mas antes uma parte integrante da sua poética - é mesmo uma função da sua poética (na verdadeira acepção da poiesis, da construção de um mundo pela teoria).