terça-feira, maio 11, 2010

"Livro do Desasocego" (Edição INCM) - Uma Apreciação Crítica



A Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM) lançou recentemente o Volume XII da Edição Crítica da obra de Fernando Pessoa, com o volume "Livro do Desasocego" em dois tomos, na Série Maior (um tomo com os textos propriamente ditos, outro com um estudo e o aparato genético).

Trata-se da primeira edição crítica do "Livro", o que, só por si, é de relevar, visto que a primeira edição do mesmo data já de 1982. Desde então esta obra tem conhecido uma vastíssima divulgação, levando o nome de Pessoa praticamente a todo o mundo e elevando-se ao estatuto da sua maior obra em prosa; o seu "Grande Livro", usando as palavras do editor Jerónimo Pizarro.

Devemos começar a nossa análise pelo título, que tem levantado já alguma celeuma. A escolha de "Livro do Desasocego" deve-se ao facto de Pessoa ter usado variações (com e sem duplo "ss"), mas tendo aparentemente optado por "Desasocego" nos textos mais tardios. É curioso, mas, a nosso ver é simultaneamente desta forma que esta edição ganha desde logo a sua própria personalidade e cunho científico. Junte-se um outro pormenor imediatamente observável: Pizarro não insiste em nomear um autor (Vicente Guedes ou Bernardo Soares) para dividir, ou não, o "Livro" em dois, embora acabe por, cronologicamente (e de forma inteligente) marcar essa mesma divisão, mas de uma forma substancialmente subliminar. Evita-se assim uma polémica desnecessária.

O que marca, certamente, ainda mais a originalidade da presente edição advém dessa divisão: o "estudo de arquivo" efectuado pelo editor (Cf. tomo II, pág. 530-31), optando por uma análise de pormenor dos originais, comparando-os e efectuando um moroso escrutínio dos mesmos para efeitos de datação. Este trabalho filológico, tomando em consideração os instrumentos de escrita, os tipos de papel, a caligrafia, os suportes e as marcas de água ou timbres nos suportes, é a base em que assenta a bem estruturada (embora necessariamente questionável) organização objectiva dos 586 textos originais.

O mesmo desejo de rigor foi seguido na forma como o corpus foi reduzido, considerando precisamente como o "Livro" se ia tornando numa espécie de repositório para inéditos de Pessoa. Assim, encontramos menos originais do que nas edições anteriores do "Livro", dando prevalência a um critério que preferiu excluir do que incluir - e que a nosso ver é de louvar.

Outros pormenores tornam a edição especial, e destes gostaríamos de realçar a colocação de fac-símiles, quer dos textos manuscritos, quer dos dactiloscritos, bem como da forma como os textos do "Livro" que foram publicados em revistas da época aparecerem graficamente distintos, mas harmoniosamente integrados com os restantes. Um ponto ainda a assinalar é a forma como nesta edição se faz a ligação intertextual entre os textos do "Livro" com outros textos do espólio e com os livros da biblioteca de Pessoa que são mencionados nesses textos, dando uma efectiva visão de conjunto a toda a obra - um objectivo que não é de somenos realçar.

Em resumo pensamos que esta edição tem uma presença marcante e consegue distinguir-se das outras edições presentes no mercado, claramente por ter um critério científico superior e igualmente por ter conseguido aliar essa precisão a uma notável simplicidade organizativa. Ou seja, é uma edição crítica que se lê com prazer e que pode muito bem destronar as edições da Relógio d'Água ou da Assírio & Alvim mesmo para o mais casual dos leitores.

Esta edição pode desde já ser adquirida na Feira do Livro de Lisboa, no pavilhão da INCM. Em breve estará também disponível na loja online da INCM.