segunda-feira, abril 26, 2010

Lobo Antunes, no Brasil, dá a sua opinião sobre Pessoa



António Lobo Antunes esteve no Brasil nos passados dias e aproveitou para dar uma longa entrevista ao jornal Folha de São Paulo (um dos mais lidos naquele país), na qual não se coibiu de dar a sua opinião sobre vários assuntos, entre eles a obra de Pessoa. Eis um excerto da entrevista onde ele fala de Fernando Pessoa:

Folha - Sua literatura é muito influenciada pelo poesia, né?

Antunes - Não sei, isso eu não sei dizer para você. Eu escrevo aquilo que eu posso, não aquilo que eu quero.

Folha - Mas é um grande leitor de Fernando Pessoa?

Antunes - Não, não. Como é que um homem que nunca trepou pode ser bom escritor? A mim me aborrece. Não é um escritor que eu admire, como admiro Camões, por exemplo. Eu acho meio chato. Mas dizer isso é herético porque Pessoa foi um bocado santificado e o mundo está cheio de viúvos de Pessoa, mulheres e homens. Não é um escritor que me entusiasme muito. Quando João Cabral esteve aqui como cônsul do Porto ele causou um escândalo enorme ao dizer que preferia Cesário Verde a Pessoa. Entendo o que ele queria dizer com isso. Álvaro de Campos é Walt Whitman, o heterônimo me faz lembrar quadra popular de cravo de papel, Ricardo Reis é todo imitado de Horácio. Sabe qual é o poema da língua portuguesa que eu prefiro no século 20? "O Desaparecimento de Luísa Porto", de Drummond. Esse poema é um milagre. Ele tem a mão tão segura naquele poema. Talvez isso tenha que ver com o fato de eu ter crescido com o meu pai lendo poesia para nós. Nós éramos muitos irmãos e, quando estávamos doentes, meu pai vinha e lia poesia para nós. E os poetas que ele lia eram Bandeira, Drummond, por aí fora.

Notícia via Portugal Digital