terça-feira, março 02, 2010

Patrick Quillier comment "Le Gardeur de troupeaux" - Uma Apreciação Crítica



Patrick Quillier é um insigne Pessoano, que tem feito muito em prol da divulgação de Fernando Pessoa em França, sobretudo, mas não só, através de cuidadas traduções publicadas na famosa Collection Bibliotèque de la Pléiade, da editora Galimard.

No fim de 2009 este autor publicou um "pequeno" livro (embora com mais de 240 páginas, podemos chamá-lo assim devido ao seu formato de livro de bolso) em que analisa a obra de Alberto Caeiro, com o título "Patrick Quillier comment Le Gardeur de troupeaux" . Trata-se de um ensaio que olha de maneira atenta não só para o "Guardador de Rebanhos", mas também para os outros dois conjuntos de poemas, "O Pastor Amoroso" e os "Poemas Inconjuntos", citando por diversas vezes a intertextualidade existente entre estes textos.

É de certo modo difícil proceder à crítica deste ensaio, sobretudo porque eu pessoalmente tenho uma opinião muito forte sobre a maneira como a obra de Caeiro pode e deve ser encarada. E percebi desde cedo pela leitura do livro de Quillier que ele pensa fundamentalmente de maneira diferente da minha. Mas as diferenças de interpretação apenas podem ser saudáveis, pelo que o melhor é encará-las de frente.

Falo sobretudo na perspectiva de análise dos poemas de Caeiro. Penso que Quillier analisa Caeiro "desde fora", o que, quanto a mim compromete o ensaio de um ponto de vista teleológico, logo à partida. Quando eu fiz a minha análise a Caeiro, decidi, por necessidade, que os poemas de Caeiro é que liderariam a minha interpretação deles. Ou seja, fiz uma análise "de dentro para fora". Isto porque me pareceu que a vida de Caeiro se formava à medida que ele escrevia - ele é, talvez, o único verdadeiro heterónimo em que se materializa o famoso cliché Pessoano tantas vezes repetido: "a biografia de um poeta é a sua obra".

Mas devemos compreender a visão de Quillier enquanto visão académica e de especialista em literatura, que o limita um pouco, na minha opinião. Isso nota-se pelas imensas "interjeições" que povoam o ensaio e que se referem a dificuldades e/ou opiniões técnicas sobre a tradução.

Essencialmente o livro divide-se em 3 partes. Uma pequena introdução a Pessoa, à génese dos heterónimos e à importância do dia triunfal; uma segunda parte denominada "table rase poétique"; e uma terceira parte (que inclui uma conclusão) denominada "table rase philosophique". Ou seja, Quillier separa de certa forma a poesia da filosofia, chegando ao extremo de analisar Caeiro de uma perspectiva semiótica! Penso que este será a opção mais polémica de Quillier - esta separação entre poesia e filosofia. É plenamente defensável que a obra de Caeiro é a perfeita união de esforços entre as duas.

No entanto há que reforçar que Quillier apreende alguns objectivos principais de Caeiro - o seu realce por exemplo à "desaprendizagem" é sinal disso mesmo. Mas sem nunca tirar realmente dividendos dessa análise. A sua conclusão vai no sentido de afirmar que Caeiro se afirma pela sua obra (aqui concordando expressamente com Octavio Paz), que é o mais positivista dos heterónimos e o sol fixo e pacífico ao redor do qual giram os seus discípulos inquietos. Mas são, afinal, conclusões óbvias, que não nos podem animar num rumo diferente daquele que muitos autores já anunciaram.

Podemos nós mesmos apenas concluir que a análise de Quillier, embora precisa literariamente, poderia ser muito mais corajosa filosoficamente, embora isso pudesse fugir do próprio âmbito objectivo do autor. Afinal parece sempre - o que lamentamos - que Pessoa não pode senão ser visto como um poeta que expressa ideias pela poesia e não o contrário.

Este livro pode ser adquirido na Fnac online (site Francês).