segunda-feira, março 22, 2010

Álvaro de Campos no CCB



Ontem, dia 21 de Março de 2010, comemorou-se o Dia Mundial da Poesia. No CCB houve um lugar de destaque para um dos heterónimos de Fernando Pessoa, o engenheiro Álvaro de Campos, com duas conferências dedicadas a ele e uma "maratona" de leitura da sua poesia.
Tive oportunidade de assistir às duas conferências e ficam aqui as minhas impressões.

Jerónimo Pizarro teve oportunidade de falar sobre as cartas de Campos, na altura de Orpheu, numa interessante e sempre bem pesquisada apresentação. À maneira de introdução falou ainda do projecto da digitalização da biblioteca pessoal do poeta, que se eterniza, mas que disse estar para muito breve online, dentro de 3-4 semanas. A discussão seguiu para um tema muito interessante, nomeadamente se Pessoa foi realmente um futurista, apresentando o conferencista algumas provas convincentes para um sim e para um não. Falou sobretudo de algumas cartas, e rascunhos de cartas escritas por Campos, em que se adivinha que Pessoa pensava que apenas a "Ode Triunfal" se aproximava do futurismo, mas que Pessoa não se consideraria, ele próprio, um futurista. Passou depois pelo tema do sensacionismo e da relação do mesmo com o futurismo - com aparente parcialidade para que Campos fosse essencialmente um sensacionista (por continuidade de Blake e Whitman).

Fernando Cabral Martins, por seu lado, fez uma apresentação mais sóbria e filosófica, abordando Campos como um fenomenologista. No entanto, não concordámos com a sua visão de que Pessoa se interessava apenas pelas sensações de um ponto de vista poético. A sensação estaria também na base da própria génese dos heterónimos (lembrou então a famosa carta que conta essa mesma génese "física"). O resto da conferência foi no mesmo tom filosófico, sendo que Cabral Martins falou da importância da síntese na teoria do sensacionismo. Desde o propósito da síntese entre simbolismo e a vanguarda, à lógica por detrás das grandes odes, como a "Marítima", que apesar de caótica é una e orgânica. Espelhando um desejo de totalidade, de compreensão da totalidade que comporta igualmente a consciência final dessa impossibilidade.

Ao mesmo tempo que decorriam as conferências, no piso superior, na "Sala Fernando Pessoa" decorria uma maratona de poesia de Campos, com a participação de ilustres personalidades. No intervalo entre conferências consegui filmar um momento único: José Wallenstein a dizer a "Ode Triunfal" de Álvaro de Campos, que deixo aqui, à maneira de conclusão de um dia em que se organizou uma festa merecida em volta de uma das maiores riquezas da humanidade: a poesia.