terça-feira, fevereiro 09, 2010

"Fernando Pessoa, Empregado de Escritório" - Uma Apreciação Crítica



Acaba de sair, pela Assírio & Alvim, a segunda edição do livro "Fernando Pessoa, Empregado de Escritório". Trata-se de uma obra emblemática da bibliografia Pessoana, que, no entanto se encontrava esgotada há mais de 10 anos. A edição original data de 1985 e a presente edição, trazida agora à luz pelo autor João Rui de Sousa, pretende ser uma edição "revista e aumentada", ou pelo menos assim se apresenta no respectivo subtítulo.

Ora, o grande problema com que se debate este livro, em 2010, é o facto desta área de estudos - a perspectiva de Pessoa enquanto trabalhador, "inventor" e empreendedor - ter evoluído desde 1985. Falamos, é claro, sobretudo da pesquisa efectuada por Mega Ferreira no seu "Fazer Pela Vida - Um Retrato de Fernando Pessoa o empreendedor" (editado em 2006), mas também dos esforços de outros investigadores, como Jerónimo Pizarro e Richard Zenith.

Parece-nos que, sobretudo em comparação com o livro mais recente de Mega Ferreira (livro que nunca é citado directamente), a obra de Rui de Sousa está algo datada, tendo uma leitura mais rígida e menos profunda. Mas não queremos ser demasiado duros com esta edição, porque ela lê-se com todo o prazer, e a forma despretensiosa como está escrita tem o seu quê de fascinante - sobretudo a maneira como se pode acompanhar a vida de escritório de Pessoa percorrendo os seus diferentes patrões, com vários comentários acessórios "compilados" pelo autor, de outras obras. Também são interessantes os pormenores relativos a um dos escritórios da época, recentemente renovados, que mantem alguns itens usados por Pessoa - uma secretária e uma máquina de escrever.

Em resumo, este livro seria realmente uma novidade quando foi lançado, mas agora fica aquém das suas possibilidades com uma mera revisão e acrescentos pontuais. Fica aquém da investigação de Mega Ferreira e coloca certamente um desafio ao seu autor de, em próxima oportunidade, partir para uma nova investigação original.

Ps: num curto ps gostaria de focar um ponto que achei curioso ao ler o livro. Numa conferência que decorreu há pouco tempo na Casa Fernando Pessoa, José Blanco discutiu os porquês da atribuição do prémio do SPN à "Mensagem", e em certa altura questionava-se como a censura tinha deixado passar o artigo "Associações Secretas" de Pessoa. Ora, ao ler o livro de Rui de Sousa, passei pela resposta - que está aliás noutro livro "Fernando Pessoa na Intimidade" - que revela a influência de uma colega de escritório de Pessoa, Maria Graça do Amaral, cuja amiga na censura "deixou passar" o famoso artigo. Achei este pormenor delicioso e tinha de compartilhar, mesmo que eventualmente seja de conhecimento geral.

O livro poderá brevemente ser adquirido online, neste link.

Agradecimentos à Assírio & Alvim pelo cortês envio de um exemplar para análise.