segunda-feira, dezembro 07, 2009

"Mensagem Clonada" (Guimarães Editores) - Uma apreciação Crítica



A Guimarães Editores é uma editora centenária, que hoje em dia incorpora também o espólio histórico da Ática, editora fundada por Luís de Montalvor (poeta e amigo de Pessoa) que iniciou a publicação da "obra completa" de Fernando Pessoa.

Por estas (e outras razões, entre as quais a ter editado "Um Fernando Pessoa" de Agostinho da Silva), a Guimarães está numa posição de certo modo privilegiada no que toca a novas edições de Pessoa. E eis porque seria expectável que esta editora, ao decidir fazer uma edição comemorativa de "Mensagem", fizesse um bom trabalho.

Tivemos oportunidade de ver a apresentação da obra, no passado dia 1 de Dezembro na Biblioteca Nacional, e ficámos de certo modo comovidos pela maneira como Paulo Teixeira Pinto (agora na direcção da Guimarães) nos falou deste projecto "único", sem orçamento e sem perspectivas de gerar lucro e que deu origem a um verdadeiro "objecto de arte". Tratava-se, segundo Teixeira Pinto, de uma réplica o mais aproximada possível ao original apresentado por Pessoa na gráfica, partindo da encadernação, pela qualidade do papel e pelo tipo de tintas utilizadas. A Fnac, quando abordada, ofereceu-se para comprar toda a edição - 2.500 exemplares, vendidos a um preço que ronda os €40 por exemplar, sem discutir sequer as suas margens comerciais.

Ficámos certamente com a impressão inicial de que se trata de um edição muito especial. E devo ser sincero e dizer que dificilmente me impressiono com objectos deste tipo. Embora nunca tenha estado com o original manuscrito nas mãos, já tive a oportunidade de manusear uma primeira edição, logo a dedicada a António Maria Pereira (o editor) e não senti particular emoção, apenas um privilégio especial.

Sendo assim encaro este livro a frio.

E será a frio a primeira (e maior) crítica que lhe farei. Nomeadamente: esta edição não se aproxima o mais possível ao original, por falhar num aspecto essencial - trata-se basicamente de uma impressão (em bom papel e encadernação, é certo) da digitalização disponível online no site da Biblioteca Nacional Digital.

A digitalização é excelente, mas quando se transforma numa impressão sofre de um mal imperdoável: cada página foi digitalizada, não individualmente e como folha solta, mas contra a folha seguinte. Por isso, quando foi impressa, pode ver-se uma transparência que mostra o conteúdo mais marcado da folha seguinte, mesmo quando a folha está solta e não posta contra a folha seguinte. Isto - para mim - tira todo o realismo na impressão do manuscrito. O facto do editor, que colocou tanto cuidado nesta edição "clonada", não ter reparado neste pormenor, parece-nos inacreditável. Ainda mais porque tudo o resto está realmente feito com uma grande qualidade. A encadernação é excelente, a qualidade do papel muito boa e a qualidade das tintas no papel sem mácula.

Apenas poderíamos indicar ainda a estranheza mínima de ver o título "Mensagem Original" impresso na lombada e da embalagem onde vem o pequeno caderno chocar demasiado com ele (tenta demais ser moderna e acaba por se tornar kitsch, num mau sentido).

Alguns especialistas deram também a sua opinião sobre esta edição. Jerónimo Pizarro considera-a "uma edição comovedora realmente idêntica ao original", enquanto Richard Zenith diz que ela "aproxima [o leitor] do próprio fabrico do Fernando Pessoa". "É de facto uma reprodução idêntica do original, reproduz o objecto e, nesse sentido é um livro-objecto. Tem, por isso, um valor de fetiche, é por isso mesmo que ele é feito", disse Fernando Cabral Martins.

De facto tenderíamos a concordar mais com Cabral Martins, na perspectiva de que se trata de um "objecto de arte", de uma comemoração (opinião igual parece ter Teresa Rita Lopes num artigo publicado hoje no DN). Aliás, como bem indicou Cabral Martins, se este foi o original, nem foi mesma esta a forma final do livro. Pessoa fez-lhe mais alterações e depois da primeira edição corrigiu ainda o livro para a segunda (essa sim a mais próxima da sua intenção final, saiu só em 1941). Pode ler-se aqui o relato exacto desta "génese editorial".

Esperemos que - em "clonagens" futuras - se tome as nossas críticas em consideração, porque, de resto, penso que se trata de um objecto magnífico, verdadeiro item de coleccionador Pessoano e que - mesmo com os erros - vale o preço exorbitante que é pedido.

Esta edição especial de "Mensagem" está à venda na FNAC.