segunda-feira, novembro 16, 2009

Entrevista com José Paulo Cavalcanti Filho



Temos o prazer de apresentar uma entrevista com o Dr. José Paulo Cavalcanti Filho, um conhecido escritor Brasileiro, membro da Academia Pernambucana de Letras, que tem dedicado os últimos anos à escrita de uma nova biografia de Fernando Pessoa.

Sei que trabalha numa biografia de Pessoa “pensando no Brasil”. Como a definiria em face das já existentes e sobretudo da monumental biografia de Gaspar Simões?

O caro José Blanco listou, grandes números, já 6 mil textos sobre Pessoa, sendo pelo menos curioso que tão poucos tenham se ocupado de sua vida. Ocorre que, nesses tantos livros, estão mais as obras que o homem. Mais palavras que carne. Depois da monumental (concordo com sua definição) biografia de Gaspar Simões (1950), a única de um português, tivemos só estrangeiros escrevendo: um espanhol, Angel Crespo (1986); um francês, Robert Bréchon (1996); e uma fotobiografia do Joaquim Vieira, com pequena biografia de um americano, Richard Zemith (2008). Agora virá um brasileiro, no próximo ano (2010), para reverenciá-lo em cerca de 600 páginas. Provando que Pessoa, mesmo sem sair de sua aldeia (o Largo de São Carlos), ou talvez por isso, é mesmo um autor universal.


Como conheceu Pessoa e o que o fascina nele, se é que se trata de um fascínio e não uma pura obsessão?


O livro que escrevo, há tanto tempo, é como um sonho do passado. Foi ganhando forma devagar, mesmo sabendo que sonhos assim não foram feitos para ser realizados. E sem ter sido propriamente eu, a escrever; que ele foi se fazendo sozinho, cabendo-me ser só a mão que dava corpo aos desassossegos de Pessoa. No fim, acabei me convertendo em um amigo íntimo. Não se deu só comigo. Luiz Ruffato lembra que era outono e azul quando apresentei-me a Fernando Pessoa. E Jorge Luis Borges pediu, deixa-me ser teu amigo. Agora também eu, talvez. Até porque confesso que o vi de costas, no Chiado. Amigos juram não ter sido ele; só que esses, coitados, não sabem nada de fantasmas. Tudo começou quando quis saber quantos eram seus heterônimos; Antonio Coelho, em 1966, chegou a 18 nomes. A querida Teresa Rita Lopes, em 1990, elevou a conta para 72. Cheguei a muito mais, que apresento agora com suas respectivas biografias. Afinal, como ele mesmo confessaria, “eu sou muitos”. Só que, apesar de tantos, o menino de sua mãe talvez não tenha conseguido sequer ser ele próprio. Por fim, e atendendo sua curiosidade, lembro que obsessão e fascínio são irmãos gêmeos. Para o bem e para o mal, andam sempre juntos. E o que Deus uniu, não separem os homens, pobres “cadáveres adiados que procriam”.

Que tipo de dificuldades atravessou para terminar essa obra?

Primeira delas foi não saber, antes, que o livro acabaria sendo o que acabou sendo. Perdi a conta das noites, tantas, que consumi escrevendo textos depois abandonados. Sem contar a obsessão pela exatidão, o não aceitar que pudesse haver erros. Cada página que escrevi, por isso, foi conferida por um conhecido historiador português, Victor Eleutério. Sobretudo para evitar equívocos na geografia de Lisboa ou na história de Portugal. Não só isso. Também para esclarecer o próprio sentido das palavras, algumas delas para nós estranhas – dominó, forcado, regicídio, rilhafoles, limoeiro (a prisão). Na “Tabacaria”, por exemplo, Álvaro de Campos escreve:
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Em nota de rodapé, inicialmente, observei que essa capoeira não é luta, tão comum na Bahia; mas pequena mata, como as que se espalham pelo nordeste brasileiro. Victor discordou, sugerindo fosse “capoeira” mesmo, com o sentido que tem aí, de uma gaiola tapada, para guardar galos capões e galinhas de capoeira. Algo de que nós, brasileiros, sequer suspeitávamos. E com toda razão; que uma gaiola assim é sem dúvida mais coerente com o verso de antes, indicando “uma parede sem porta”; e o de depois, um “poço tapado”, todas idéias de clausura. Obrigado, Victor.

A obra de Fernando Pessoa é mesmo tão apegada à sua literatura, tudo o que ele escreveu estava ao seu redor, ao ponto de você defender que ele era um autor sem imaginação?

Essa, sim, foi uma grande descoberta, a de que Pessoa não tinha imaginação. Assim creio, firmemente; contra a imagem, que se tem, de ser um cândido sonhador. Dentro de limites aceitáveis, foi deixando pegadas em tudo que escreveu. Em cada página está sua vida ou que lhe era próximo – amigos, família, admirações literárias, mitologia. Hoje, ao ler uma frase sua, sou quase capaz de imaginar o que sentia nesse escrever. Uma prática que usou mesmo na construção dos heterônimos. Álvaro de Campos, por exemplo, nasceu em Tavira, terra do avô paterno de Pessoa. Em 13 de outubro, dia de aniversário de Nietzche, uma de suas admirações literárias. Em 1890, para ter um ano a mais que Alberto Caeeiro, dois a mais que o próprio Pessoa, e três a mais que Ricardo Reis. Sim, sei bem que tudo começou com uma partida do Ferreira Gomes. Mas esse amigo conhecia bem seu estilo, e nunca o trairia. Não só isso. Campos, como confessou o próprio Pessoa, tem tipo “vagamente de judeu português”, evocando sua própria etnia. Era dois centímetros mais alto que ele. Vivia “ao lado de uma tia-avó”, em verdade “tias velhas”, evocando as tias-avós Maria e Rita. Visitou Newcaste-on-tyne, onde Eça de Queiroz foi cônsul. Era engenheiro naval, profissão de um genro de sua tia Anica, com quem então morava. Depois foi-se para Lisboa, onde morava Pessoa. E era homossexual, como Pessoa talvez tenha sempre querido ser; mas só até 1920, quando conhece Ophelia Queiroz. E depois muda, para acabar casando – o que Pessoa nunca faria. Sem contar que, a partir dos anos 20, já não era Campos a escrever. Era o próprio Pessoa. O que fica então de imaginação, na construção de personagens? Segundo tenho, quase nada.

Qual pensa que será a sua perspectiva de Pessoa, por ser Brasileiro? Diferente da Portuguesa?

O homem é o mesmo, independentemente de quem o veja. No caso de agora, como leitor, quis sempre descobrir os segredos, por trás do que escreve. Na Tabacaria, por exemplo, saber quem era a pequena que comia chocolates; quem era a lavadeira, sua filha, e quando se seu esse romance; quem era o dono da Tabacaria e qual era essa Tabacaria; ou quem era, afinal, o tal Esteves. Tudo isso está no livro, bem documentado. Sem contar que uma biografia pensada para o Brasil tem, necessariamente, que estabelecer pontes. Os projetos comuns que nos ligavam: Álbum de Portugal, Cosmópolis, Orpheu. Textos de louvor, como Brasil, nação irmã e amiga, editado por Notícias Ilustradas (1925); ou de crítica, como o Ultimatum de Campos (1917), em que diz: “E tu Brasil, república irmã, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir”. Os pontos de encontro – a língua e o sebastianismo. O único brasileiro citado em poesia sua, Catulo da Paixão Cearense. A proximidade nos temas. Em conferência que acabo de realizar, juntamente com Inês Pedrosa (diretora da Casa Fernando Pessoa, claro), listei vasto conjunto de textos de Pessoa que são de alguma forma semelhantes os de autores ilustres do Brasil. Por exemplo:

Pessoa (Isto).
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Carlos Drummond de Andrade (Memória).
Mas as coisas findas
Muito mais que lindas
Essas ficarão.
.....................................................................

Pessoa (Aniversário).
A mesa posta com mais lugares.

Manuel Bandeira (Consoada).
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar
....................................................................

Pessoa (sem título, 1916).
E ter sempre o momento
Aqui, eterno enquanto dura...

Vinicius de Moraes (Soneto da fidelidade).
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Por tudo, então, Pessoa morreu? Viva Pessoa.