sábado, setembro 19, 2009

Quem era Hanni Jaeger?

Quando se comemoram 79 anos da chegada do mago Aleister Crowley a Portugal, para uma visita misteriosa (mas já revelada pelo menos em parte como sendo uma visita esotérico-comercial) a Fernando Pessoa, pensámos que seria interessante analisarmos os pormenores existentes sobre uma personagem que viajou com o mago e que teve um grande impacto em Pessoa: Hanni Jaeger.

Hanni Larissa Jaeger, uma rapariga de 19 anos, Alemã, era em Setembro de 1930 a "mulher escarlate" de Aleister Crowley - o nome figurativo, nascido da própria cosmologia de Crowley, de uma deusa da fertilidade e do ímpeto sexual feminino. A companhia de mulheres mais jovens era um hábito do mago inglês, que dava continuação lógica (e prática) às suas teorias esotéricas, que muitas das vezes incluiam rituais sexuais. Crowley mudava frequentemente de companhias femininas, provavelmente devido à exaustiva exuberância da sua vida, e tinha preferência por personalidades que pudessem de certo modo acompanhar a sua própria energia caótica.

Miss Hanni - conhecida também por Anu e pelo epíteto "the monster" (de uma entrada no diário de Crowley) - faz juz à sua personalidade aquando da estadia em Portugal. Fala-se sobretudo de uma crise histérica que os leva a serem expulsos de um hotel e a várias tiradas exuberantes em restaurantes em Lisboa. Seja como for, fica mais ou menos claro que Hanni não será alguém que passe despercebido, sobretudo na conservadora Lisboa dos anos 30.

Pessoa - liberal mais no espírito do que na carne - ficou impressionado com Hanni. Mas essa impressão mostra um pouco a imaturidade emocional de Pessoa (que em Outubro de 1929 tinha reatado o namoro com Ophélia Queiroz, que só seria quebrado definitivamente no início de 1931). Será porventura uma atracção física, mais do que uma atracção intelectual.

Um poema ajuda-nos a perceber isso mesmo. E ajuda a construir a descrição física de Hanni:

Dá a surpresa de ser
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Datado de 10 de Setembro de 1930 (o mago chegou dia 2), o poema é crú como a impressão que Hanni terá feito em Pessoa: alta, germânica, loura e de pele branca. Sensual e simbolizando o que Pessoa não teria ainda alcançado: a consumação do sexo.

Acrescentamos agora uma imagem do "The Old Master Catalogue", que pensamos ser a única imagem disponível de Hanni Jaeger, e que ainda não foi publicada fora daquele livro de pinturas de Crowley:

(clicar na imagem para ver em alta resolução)

Embora seja apenas uma das muitas pinturas naifs de Crowley (que não era um pintor dotado), percebemos algumas das características que Pessoa refere, nomeadamente os traços germânicos da cara. É curioso acrescentar a imagem ao poema, porque ficamos com a mais próxima caracterização fisíca possível de uma das mulheres da vida de Pessoa, embora a sua passagem por Lisboa tenha sido fugaz. E a menos que alguém encontre num arquivo Alemão, uma qualquer foto que tenha sobrevivido aos caos da II Guerra Mundial, será porventura a melhor imagem que alguma vez teremos desta misteriosa mulher.

Agradecimento a Marco Pasi pelo envio da imagem digitalizada. Imagem © Thelema Media