sábado, setembro 26, 2009

"Passageiros da Neblina" - Uma Apreciação Crítica



A Planeta - editora Espanhola de referência - decidiu traduzir para Português e publicar no mercado nacional a obra de Montserrat Rico Góngora "Passajeros de la Niebla".

Apresentado como sendo um romance que tem como as duas personagens principais Fernando Pessoa e Aleister Crowley, não podemos deixar de começar a nossa crítica precisamente por este ponto: qual o papel dos dois no desenrolar deste romance? Diríamos que muito reduzido, se é que algum.

Pessoa aparece no início do romance - mais para ser vilipendiado por um empregado de mesa demasiado falador e demasiado erudito do que propriamente como interveniente e Crowley passeia-se como um espectro durante o restante do mesmo.
Aliás, o tom difamatório pode mesmo ser entendido como de mau gosto. O empregado de mesa supõe que Pessoa é hermafrodita, e os inspectores que investigam o "caso" rebuscado que envolve Crowley depreendem a certo ponto que escândalo, escândalo era encontrarem Pessoa e Crowley envolvidos românticamente.

O que nos choca é sobretudo a colagem destes clichés (a suposta homosexualidade de Pessoa e o facto de ser um isolado social) serem as caraterísticas principais usadas para a sua caracterização. Além disso, os clichés da heteronímia estão presentes de maneira crua no interrogatório a Pessoa, e são conhecidos não se sabe muito bem como pelo inspector Inglês que fala com Pessoa. Já Crowley, pelo menos "escapa" deste profiling descarado, mas não escapa ao cliché do Satanista inveterado. Um facilitismo que de imediato me retirou do romance.

Resumindo a impressão inicial, fica-nos a óbvia impressão que foi perseguido um tema de impacto fácil para a capa e para o título - Pessoa e Crowley - mas que no interior do livro não encontra nenhuma substância. Aliás o enredo é de segunda categoria, com saltos incompreensíveis em diversos momentos, que nos tiram completamente da história.

Os lugares no romance são usados também para colar ainda mais descaradamente um processo narrativo que não convence e que usa de artifícios demasiado ligeiros, sobretudo para quem esperava algum "sumo" desta história. Aqui a comparação com o livro de David Soares, por exemplo, é por demais evidente, sendo muito mais favorável ao autor Português.


O embuste é revelado rapidamente: a capa Pessoa/Crowley esconde a banalidade de uma história paralela que se assume como história principal - o assassinato de um senhor qualquer por Crowley, que viaja entre épocas sem envelhecer, assumindo-se verdadeiramente como uma figura sinistra sem personalidade autónoma além dos seus actos de velhaco histriónico. Montserrat Góngora quase que não disfarça o quão rapidamente queria deixar Pessoa e Crowley para trás e passar para um método romanesco que mais lhe agrada, sobretudo usando personagens completamente fictícias. Mas então porque chamar ao livro "Passageiros da Neblina" e não "O Assassinato do Sr. Ovadía" (nome do assassinado por Crowley)?


A resposta óbvia é que esta decisão não seria a mais rentável comercialmente...


Temos de recomendar que ninguém compre este livro ao engano. Não há nele nenhuma história em volta do encontro Pessoa/Crowley, nem Pessoa ou Crowley encontram lugar de mínimo relevo nele. Pensamos ser mesmo um caso escandaloso de falsa publicidade...