quarta-feira, setembro 09, 2009

Os Heterónimos: um fenómeno de mediunidade?



Achei um texto curioso, embora com alguns erros factuais, escrito a partir do Brasil - país que continua a demonstrar a sua força e energia nos estudos Pessoanos - que aventa a possibilidade de os heterónimos de Fernando Pessoa serem espíritos "desencarnados". Relevo o texto apenas pela hipótese que levanta e porque considero positiva a discussão de hipóteses no que diz respeito à obra de Pessoa.

Ora, sabemos que Pessoa se interessava pelo espiritismo (seria mais fácil no entanto indicar algo por que não se interessasse, vista a sua infinita curiosidade), tendo mesmo tido experiências de escrita automática, deixadas no espólio. Como se diz no tal texto, a sua mãe e a sua tia Anica eram as pessoas que mais o aproximaram desta prática. Uma prática, no entanto, muito em voga no início do Séc. XX.

Será Allan Kardec que na França dará grande notoriedade a esta escola de pensamento paralelo, França essa que na altura tinha uma imensa esfera de influência sobre todos os países Europeus (talvez com a clara excepção das ilhas britânicas).

O espiritismo tornou-se uma "moda", sobretudo nos lares da média/alta burguesia da época, espalhando-se quase como forma de entretenimento em família. Não é pois de estranhar que Pessoa o conhecesse de perto - e o levasse porventura mais a sério, visto os seus próprios interesses filosóficos.

Ora quando se diz: "É muito provável que os heterônimos Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro Campos, com quem Fernando Pessoa assinava seus poemas, sejam nomes dados por poetas quando encarnados, o que demonstra que a autoria desses versos seja de Espíritos desencarnados e não dele mesmo."; incorre-se numa afirmação polémica.

Por duas razões simples eu tendo a discordar: 1) os poemas mediúnicos tendem a não ser brilhantes (por alguma razão o espírito "desencarnado" não mantém a sua genialidade); 2) a escrita dos heterónimos não é ela própria uma "escrita desencarnada", falha de elementos biográficos de Pessoa, pelo contrário.

No entanto a hipótese pareceu-nos interessante, sobretudo porque aborda um tema querido a Pessoa - o ocultismo - que poucas vezes é tocado pelos seus estudiosos.