quinta-feira, agosto 06, 2009

Martinho da Arcada poderá fechar até Dezembro



O Martinho da Arcada (em cima, numa foto tirada em 1942), em plena Praça do Comércio em Lisboa, era um dos cafés de Pessoa. Não era "o café de Pessoa" pela simples razão do poeta fazer a sua vida por vários cafés, do Chiado à Baixa, do Rossio à Praça do Comércio.

Mas é certo que ao longo do tempo dois cafés passaram a ter essa imagem emblemática de "cafés de Pessoa": a Brasileira do Chiado e o Martinho da Arcada na Praça do Comércio. Tanto é assim que ambos se arrogaram imagens icónicas para acompanhar o mito, um Pessoa em bronze no Chiado e a mesa-altar mantida de origem no Martinho para admiração dos peregrinos.

Como "lugar sagrado" dos Pessoanos, o Martinho (que conta já com 227 anos de vida) é de direito próprio um local histórico da cidade e preocupam-nos as notícias mais recentes que avisam que o mesmo poderá fechar até Dezembro por causa das obras na Praça do Comércio. Mas será a culpa só das obras?

Quando se fala do Martinho, fala-se do café Martinho. Mas a realidade é que o café foi transformado em restaurante de luxo, e que serve sobretudo turistas. Há uma pequena parte do mesmo que continua café, mas o todo do estabelecimento foi sendo descaracterizado. Não será a perda dos turistas a verdadeira razão da crise? O certo é que a mesa de Pessoa já não é - há bastantes anos - uma mesa de café, onde o poeta pediria o seu "sol estrelado" (ovo estrelado) e acompanhamento de aguardente.

Surgem notícias que será reposto um ciclo de tertúlias para reanimar o Martinho, mas porventura não bastará, face às tais obras na Praça. Mas - dizemos nós - não seria também de pensar em reformular o próprio conceito do espaço?