quinta-feira, agosto 06, 2009

Entrevista com Michaël Stoker



Temos o prazer de apresentar uma entrevista com o Professor Michaël Stoker, divulgador da obra Pessoana na Holanda e que recentemente descobriu no espólio Pessoano diversos inéditos do poeta falando dos Países Baixos.

Como é Fernando Pessoa lido e apreciado nos Países Baixos? Há maior interesse pela sua poesia ou pela sua prosa?


Pessoa é extremamente conhecido na Holanda e a sua influência na literatura e nas artes Holandesas foi enorme. Toda uma geração de poetas, escritores e artistas admitiu ter sido influenciada pelo escritor português. O poeta e crítico holandês Rob Schouten escreveu: «não há poeta estrangeiro que tenha causado tanto impacto nos leitores holandeses como Fernando Pessoa». Schouten intitulou mesmo O poeta holandês Fernando Pessoa: trinta anos de influência ecuménica um artigo seu publicado em 2006. Entre as traduções Holandesas, contam-se 8 volumes de poesia Pessoana e 12 volumes de prosa. A primeira e excelente antologia da poesia heteronímica, traduzida por August Willemsen (1936-2007) em 1978 teve 13 reedições. Esta edição de poesia, juntamente com a prosa do
Livro do Desassossego, inicialmente publicado em 1990 na versão 'princeps' da Ática e recentemente reeditado na versão de Assírio e Alvim teve um grande sucesso na Holanda.

Sei que houve um festival há pouco tempo dedicado a Pessoa, como correu?


O festival correu muito bem. Foi de facto um grande êxito! Mesmo sabendo que Pessoa tem muitos leitores na Holanda, o seu sucesso ainda foi uma surpresa. Contámos mais que 1.700 visitantes, um número enorme para um 'mono-festival' sobre um só autor estrangeiro e já morto. O sucesso indica a popularidade de Pessoa na Holanda.


O que o captivou em Pessoa e como o conheceu?


O meu 'encontro' com Pessoa, deve-se ao Prof. Paulo de Medeiros, o actual professor catedrático dos estudos portugueses na Universidade de Utrecht. Eu estudei literatura moderna e Medeiros visitou depois da sua instalação, uma das aulas para falar sobre José Saramago, que naquela altura tinha acabado de ganhar o Nobel. Ele também falou brevemente sobre Pessoa, que achei muitíssimo interessante. Uma vez que eu, pouco depois, tinha lido o
Livro de Desassossego, apaixonei-me definitivamente pela obra Pessoana. Escrevi a minha tese de mestrado sobre Pessoa e continuei de estudar as obras para uma tese de doutoramento.

Pode falar-nos um pouco sobre o seu estudo sobre o Livro do Desassossego, de que trata na sua tese de Doutoramento?

A tese ainda não está concluida. A tese apresenta um esboço de uma edição crítica do
Livro do Desassossego, que surpreendemente até agora ainda não há, e fala sobre as dificuldades de ler a obra como livro, no sentido tradicional da palavra. Os fragmentos não permitem ser considerado, na minha opinião, como um todo, mas simultaneamente Pessoa deu o título 'Livro' ao conjunto. Eis a grande crise do Livro. Esta levanta questões interessantes em termos de crítica genética e hermenêutica. A questão central será em que medida o LdD pode ser considerado uma obra modernista.

Pensa que o facto de Pessoa ter vivido em Portugal impede que seja verdadeiramente universal? A língua natal é neste caso um obstáculo inultrapassável?

A lingua Portuguesa é um aspecto essencial da obra Pessoana, e também do sucesso internacional da obra, como o papel central da cidade de Lisboa. Nós reconhecemos no mundo inteiro os sentimentos e crises de identidade nos poemas de Pessoa, não importa em que língua estes sentimentos universais foram formulados. O facto que Pessoa foi tão indivisivel da sua língua natal, fortalece o impacto da sua obra. Acerca da lingua Portuguesa como 'obstáculo inultrapassável': acho que os governos dos países lusitanos têm que estar mais cometidos à divulgação da língua e cultura lusitana. A lingua Portuguesa tem mais que 200 milhões de 'native speakers' no 4 continentes; é uma das linguas maiores do mundo. Mas aqui, nos Países Baixos, temos só 10 ou 15 estudantes nos estudos Portugueses por ano. Os estudos espanhoís têm algumas centenas de estudantes. Temos na Holanda um instituto Espanhol (Instituto Cervantes), Francês (Maison Descartes), Alemão (Goethe Institut), mesmo um instituto Italiano, mas não temos um instituto Português/Brasileiro. Estes institutos organizam actividades, palestras, cursos de línguas, viagens e são também grupos de pressão importantes para influenciar a opinião pública e o poder político. Toda a gente aqui conhece os fados Portugueses de Mariza, mas ninguém sabe que o Portugal tem vinhos melhores do que os vinhos franceses, cafés melhores do que os espressos Italianos e uma das literaturas mais interessantes da Europa. O desenvolvimento da economia Brasileira pode potencialmente resultar num lugar central na economia international. Com uns esforços conjuntos dos governos Portugueses e Brasileiros, pode-se remover muitos dos 'obstáculos' da ignorância acerca da lingua e cultura Portuguesa. Queria dizer aos políticos, com Pessoa: Senhores, falta cumprir-se Portugal!