sábado, dezembro 06, 2008

Portuguese Studies Pessoa: uma apreciação crítica



Tendo-me chegado às mãos recentemente um exemplar para review do número da Portuguese Studies dedicado inteiramente a Fernando Pessoa, aqui fica um resumo crítico do conteúdo da mesma, com o resumo de cada artigo/análise:

Introduction (por Jerónimo Pizarro e Steffen Dix, guest editors)

A introdução é, quanto a mim, bastante curiosa. Cientificamente bastante correcta e pormenorizada, carece no entanto daquela ligação emocional que estaria certamente mais presente se ambos tivessem nascido em Portugal. Os dois investigadores são competentíssimos, sem dúvida, mas há um distanciamento que lhes dá a eles (e a nós leitores) uma outra hipótese de leitura sobre o "fenómeno Pessoa". Desde logo, a ideia que tiveram, de comemorar os 120 anos de Pessoa publicando em Inglês, só poderia mesmo vir de "estrangeiros". E ainda bem.

A discussão que decorre na introdução, e que de certa forma se expandiu para os trabalhos do Congresso Internacional recente, levantam válidas e urgentes questões. Nomeadamente em volta do estudo consolidado do espólio e do "confronto" que parece cada vez mais inevitável entre os herdeiros de Pessoa e os investigadores. O facto da sobrinha de Pessoa não ter aparecido no Congresso, sem avisar, é bem prova do ambiente pesado que se instalou depois do último leilão Pessoa. Fica no ar a questão do acesso futuro ao espólio ainda em posse dos herdeiros...

Pessoa in English: a selective overview - José Blanco

O sempre "enciclopédico" José Blanco dá-nos uma imagem da curiosa fortuna crítica de Pessoa em Inglês, desde 1918 até ao presente. Não podemos deixar de ficar impressionados pela forma como ele foi (e continua a ser) largamente ignorado no mundo anglo-americano, sobretudo sabendo como Pessoa sempre se considerou um escritor (pelo menos) bilingue e que continuava a pensar em Inglês até à hora da sua morte. O sentimento final, pelo menos para mim, foi de que o destino se encarregou de decidir realmente se Pessoa era um poeta Inglês-Português, ou Português-Inglês. A sua aceitação no Continente Europeu, mas não nas "ilhas", é um bom sinal dessa decisão.

Shakespear, the "Missing All" - George Monteiro

Um especialista em análises comparativas, Monteiro elabora um artigo cujo tema também foi falado posteriormente no Congresso pela Prof. Mariana de Castro: a relação Pessoa/Shakespear. E as visões de ambos os investigadores são coincidentes em dizer que Pessoa provavelmente via-se como alguém capaz de superar Camões, mas não o Grande Bardo. A sua única esperança seria mesmo a de, como "poético dramático" ir além da linguagem escrita e - estabelecendo um verdadeiro "drama poético vivo" - colocar a Shakespear um desafio nunca antes tentado.

Seja como for, e porque Pessoa se considerava a si mesmo sobretudo um "poeta dramático", o seu grande mestre e mais alto objectivo continou sempre a ser Shakespear. Nele Pessoa via também de certo modo um modo de acesso a uma verdade superior, através do conhecimento das almas e nisto acabou talvez por superar o mestre.


Pessoa, Antero and Shakespear in between - Onésimo T. Almeida

Abordando novamente Shakespear, Onésimo toca um ponto interessante. Sabemos que Pessoa vê Shakespear enquanto modelo sobretudo pela sua mestria da "insinceridade": é o maior poeta insincero e por isso é o maior "poeta dramático". Só pela insinceridade se atinge o conhecimento das outras almas, se é outro, se tem a capacidade de "outrar".

O acesso à verdade pelo fingimento é um sinal óbvio também de que Pessoa, embora se dissesse poeta, era bem mais do que isso: era essencialmente um pensador. A poesia, tal como a prosa, serviam-lhe enquanto instrumentos de linguagem, ferramentas para se outrar e perceber os mistérios. Por isso ele admira os poetas que permitem esse "outrar", poetas que vão além da comum expressão da poesia, usando o intelecto - como Antero. A "emocionalização do pensamento", constituiu-se, para Pessoa como a grande força dos Portugueses, e de Antero de Quental. Essa síntese de opostos atrai Pessoa para Antero, sobretudo na sua juventude, como um precursor de algo novo, de algo futuro.

For a digital edition of Pessoa's Marginalia - Patricio Ferrari

Um dos jovens investigadores que se ocupa da marginália de Pessoa (as suas notas aos livros pessoais), Ferrari habitua-nos já a profundas e inovadoras interpretações. Esta noção da análise da marginália de Pessoa é uma novidade nos estudos Pessoanos, dos últimos 5, 6 anos e constitui uma das mais interessantes novas perspectivas.

A compreensão do que Pessoa leu, quando leu e de maneira as suas leituras o afectavam, sobretudo nos seus anos formativos são de grande interesse e cada vez mais se vão afirmar como pontos essenciais nos estudos Pessoanos mais sérios. O desafio, segundo a minha opinião, será o de conciliar a marginália com os escritos "independentes" de Pessoa e o modo de interacção entre ambos (uns são gerados, outros influenciados, outros ainda influenciam a marginália). Poder-se-á assim estabelecer de certa maneira como algumas ideias surgiam a Pessoa, como ele era influenciado pelas leituras que fazia e o modo como essas mesmas leituras o perturbavam (lembro-me sobretudo de uma entrada do seu diário de 1910 onde ele diz: "Though I have been a reader voracious and ardent, yet I remember no book that I have read, so far were my reading states of my own mind , dreams of my own, nay, provocation of dreams". E ainda no mesmo ano: "I have found out that reading is a slavish sort of dreaming. If I must dream, why not my own dreams?").

Ferrari termina com um index dos livros na Biblioteca de Pessoa, incluindo alguns livros "perdidos". Ferrari chegou a dizer no Congresso que esta lista ficou incompleta, porque soube aquando do leilão da existência de outros volumes que desconhecia estarem com a família (aparentemente esta não mostrou todos os livros aos investigadores, nem sequer quando "vendeu" a totalidade da biblioteca pessoal do poeta ao Estado).

Before Alexander Search: a notebook - João Dionísio

Um dos cadernos de Pessoa adquirido pela BN em 2007 será em breve editado pela Imprensa Nacional, por Jerónimo Pizarro no volume XI da Edição Crítica. Antecipando a publicação, este artigo analisa esse caderno em grande pormenor.

O caderno, com entrada de 1903 a 1909 ilustra a transição de C. R. Anon para Alexander Search. Trata-se de um artigo com grande interesse para a compreensão deste período, mas dificilmente resumível em poucas palavras.

Pessoa's Detective Writings - Maria de Lurdes Sampaio

Sem dúvida que o grande destaque das edições Pessoanas do final de 2008 vai para o volume "Quaresma Decifrador: As Novelas Policiárias" publicado pela Assírio & Alvim. As suas quase 500 páginas reunem o que Pessoa escreveu sobre o tema, incluindo as suas novelas policiárias, algumas acabadas, outras nem tanto.

Alguns estudiosos têm sido renitentes na aceitação destes trabalhos como um "coisa séria" de Pessoa. Mas para Pessoa a escrita policial não se distingue do resto da sua escrita. Aliás, foi bem curiosa a apresentação de Luísa Costa Gomes no Congresso onde ela destacou precisamente o carácter "literário" e refinado desta escrita de Pessoa. Sabemos que Pessoa tinha um grande interesse neste tipo de literatura e, pegando nela, inovou. Interessava-lhe sobretudo a parte do racíocinio abstracto do "investigador" - por isso mesmo o seu Quaresma não sai de casa para investigar, ele é um pensador recluso, bem à sua própria imagem. Sampaio também destaque que Pessoa se interessa sobretudo por investigar a razão e a psicologia do crime e não em reconstituir os crimes no processo de os desvendar. Afinal as novelas são nada mais do que um outro meio de Pessoa se "outrar" - por isso mesmo serão um meio comunicante com as suas outras obras e os seus outros heterónimos, semi-heterónimos e pseudónimos.

Pessoa on Salazar and The New State - José Barreto

Este é um interessantíssimo ensaio sobre Pessoa e Salazar. Já tinha gostado muito de ouvir Barreto no Congresso e o artigo confirmou completamente a minha impressão inicial.

Apesar de retratar Pessoa como um "inconstante" (ou um situacionista), Barreto consegue passar a imagem objectiva, e provavelmente mais próxima da realidade, que era a de que Pessoa "aderia a tudo", porque era sobretudo um voraz leitor e aglutinador de tudo em seu redor. Serve isto também para apagar de vez o mito que Pessoa poderia ser fascista ou ser apoiante convicto do Salazarismo. Barreto diz, e bem, que Pessoa, enquanto individualista extremo, nunca poderia ser um seguidor. Por isso mesmo a sua aceitação (e posterior recusa) do Salazarismo tornaram-se processos intímos e solitários. Aliás, é muito curiosa a compreensão neste artigo de que Pessoa foi mesmo instrumentalizado pelo Estado Novo, sobretudo por António Ferro e Augusto Ferreira Gomes, e seduzido a ser parte integrante da máquina de propaganda da qual o SPN (dirigido por António Ferro) era a face mais visível.

Ferro sabia da "Mensagem" e do nacionalismo de Pessoa e tentou seduzi-lo para dentro do "sistema", premiando a "Mensagem" com um prémio à última da hora que assegurava a sua publicação. Pessoa deve ter percebido posteriormente e por isso não apareceu à atribuição do prémio. A sua demarcação foi feita a posteriori e indirectamente, publicando um artigo em apoio da maçonaria - que passou na censura provavelmente porque Pessoa já estaria indiciado como "apoiante" das políticas culturais do Estado Novo. Curiosíssima a reacção do jornal oficial do Estado, o "Diário da Manhã", que dias antes cantara os elogios à "Mensagem" deixa uma singular frase: "Vá lá a gente fiar-se em poetas!". A partir de então Pessoa torna-se persona non grata com o regime. Acusa e defende-se, mas fica tudo na Arca. Acusa um "anão" da censura, que Barreto diz poder ser Ferro ou mesmo Salazar (talvez fosse Augusto Ferreira Gomes?). Seja como for, tivesse Pessoa vivido mais anos e teria de lutar contra a censura, provavelmente apenas publicando no Brasil (ou no exílio).