sexta-feira, dezembro 12, 2008

Investigadores reagem a entrevista de Manuela Nogueira



Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa, deu uma entrevista ao DN no passado dia 9 onde critica duramente o trabalho dos investigadores Pessoanos que procederam à digitalização do espólio ainda presente na casa dos familiares. A Sr.a Nogueira chegou mesmo a apelidá-los de "arrivistas" e interessados em "aparecer e apresentar originais que os outros pessoanos não teriam".

Face a estas declarações, recebemos um email de Jerónimo Pizarro (directamente visado na entrevista, na foto à direita) em que o mesmo dizia querer confrontrar as declarações da Sr.a Nogueira com as dos investigadores em questão.

Publicamos por isso, na íntegra, o email que recebemos, desta vez de Patricio Ferrari, (na foto, à esquerda) em que o investigador contrapõe as declarações da herdeira de Pessoa:

1 - Fiquei muito admirado com as acusações que Manuela Nogueira nos fez nas suas declarações ao DN (Diário de Noticias, 9-XII-2008, p. 46). Sempre tive um trato extremamente cordial com os herdeiros (tanto com Manuela Nogueira como com Luis Rosa), felizmente trabalhámos na digitalização sempre com a maior das confianças. Não entendo, portanto, esta quebra de confiança ao ponto de ter sido posta em causa a integridade e seriedade do nosso trabalho como investigadores.

2 - Estando grato pela amabilidade com que os herdeiros nos acolheram nas suas casas para permitir que os documentos fossem digitalizados, devo contudo dizer que fiquei muito incomodado quando, no catálogo do leilão, me deparei com 11 (onze) títulos de revistas e livros que os familiares não nos tinham facultado para serem digitalizados, garantindo que não havia mais nada. Isto é particularmente frustrante visto que acabei de publicar, na revista Portuguese Studies de 2008, uma lista de todos os livros, revistas e folhetos que se encontram na posse da família, ficando assim essa lista incompleta e, por conseguinte, lesada a investigação sobre Pessoa.

3 – Relativamente à afirmação de que os documentos leiloados "não têm valor para os estudiosos", como é que uma pessoa não especialista pode determinar o que é e não é importante para a investigação da obra de um escritor?

4 - Quanto à vontade «de aparecer e apresentar originais» como declara Manuela Nogueira, só refiro que desde há mais de dois anos trabalho entre o Espólio na BNP e a CFP onde se encontram inúmeros inéditos. Se houvesse da minha parte um interesse pessoal em publicar inéditos, bastaria escolher um dos muitos que se encontram nestes dois espaços públicos e fazê-lo.

5 – Quanto à "esparrela" em que alegadamente a autarquia caiu (a interposição de uma providência cautelar relativamente à venda da capa de um livro), esclareço que juntamente com os meus colegas sabia que a capa do livro As Doutrinas Anárquicas, guardado na CFP, estava na posse da familia (e que já a tínhamos digitalizado). Limitámo-nos a informar a Câmara desse facto, o que nos parece perfeitamente natural.

Ps: Jerónimo Pizarro acrecenta o seguinte: a Sr.a Manuela Nogueira recebeu 2 DVDs com o resultado das digitalizações efectuadas, sendo que esses 2 DVDs (bem como muito mais material) foi facultado ao Ministro da Cultura que deu cópia dos mesmos à BNP. Estes DVDs desempenharam mesmo - segundo Pizarro - um importante papel na altura de decidir o que seria adquirido pelo Estado no recente leilão Pessoa.