sexta-feira, dezembro 19, 2008

DaCosta sobre Pessoa (continuação)



Escrevemos em Novembro, logo depois do fim do Congresso Internacional Fernando Pessoa, sobre uma passagem polémica de Fernando DaCosta, no seu último livro "Os Mal Amados", em que o jornalista descreve uma conversa tida com o Prof. Agostinho da Silva e que na realidade é o desvendar de um inédito de Pessoa. É este o texto em questão:


Confidências de Pessoa


A meio do trajecto inclina-se para o motorista: «Por favor, em vez de levar-nos ao Príncipe Real deixe-nos no Café Martinho da Arcada». Recosta-se e comenta-me: «Vamos jantar com o Pessoa».
A sua mesa estava vaga. Dá-me o lugar que fora do poeta e senta-se de frente: «Era aqui que eu ficava».
Raramente Agostinho da Silva referia a sua relação com o autor de A Mensagem. Chegou até, incomodado com o afã das suas (de Pessoa) fanáticas universitárias, a negar que o tivesse conhecido. Num encontro ardilado por algumas, invectiveis do mesmo: «Deixem-se de coscuvilhices sobre a sua vida e estudem a sério a sua obra. Se ele entrasse aqui neste momento a pedir-lhes dinheiro para um bagaço, vocês corriam-no, nem sequer o reconheceriam.
Pedimos bacalhau com natas, água sem gás e café.
«Encontrámo-nos aqui em Dezembro de 1934. Eu tinha chegado há pouco a Lisboa, dava explicações a particulares, e entrei. Era um fim de tarde frio, chuvoso. Vi-o neste recanto, sozinho, papéis na mesa, um ovo estrelado, um copo de aguardente. Olhámo-nos. Eu lera artigos seus, ele coisas minhas. Fez sinal para o acompanhar. Quase não falou. Nem eu. Perguntou-me se queria um sol frito, era assim que chamava aos ovos estrelados. Passámos a estar juntos, discutíamos literatura, filosofia, política... Quis traçar a minha carta astrológica, mas recusei. Tinha feito a sua, iria morrer, asseverou, dentro de oito meses. Faleceu um pouco mais tarde, a 30 de Novembro de 1935».
«Nas últimas vezes que nos encontrámos, Pessoa estava invulgarmente acabrunhado. “Sinto-me muito arrependido”, disse-me, “pelas cartas de amor que escrevi a Ofélia”. Fizera-o movido pela sua irremediável fantasia heteronímica. Enfastiado, resolvera criar (interpretar) o papel de um vulgar empregado de escritório da Baixa de Lisboa, que se enamora, o que era frequente suceder, por uma vulgar colega. Para o papel desta foi buscar Ofélia, sem reparar que se tratava de uma mulher real, crédula, apaixonada. Divertiu-se durante bastante tempo (interrompeu e recomeçou o jogo do compromisso) com a escrita de ridículas cartas de amor a uma ridícula dactilógrafa carente de afecto e atenção. Quando percebeu a monstruosidade criada, caiu em si e, cerce, cortou o equívoco. A missiva onde o fazia, a última, num estilo completamente alheio ao das anteriores, é significativa disso».
Nela, escreve: «O meu destino pertence a outra lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinada cada vez mais a Mestres que não permitem nem perdoam».
Curiosamente «ninguém, até hoje, entre tantos especialistas, teses, congressos, ensaios, livros sobre ele, percebeu o drama que o dilacerou», exclama já no fresco do Terreiro do Paço, Agostinho da Silva.
Encarando-me, comenta: «Você devia escrever, no estilo de O Viúvo, um romance sobre o heterónimo em que ele se transformou no dia em que desapareceu, porque ele não morreu».

in Fernando DaCosta, Os Mal Amados, págs. 357-9, Casa Das Letras.

A princípio desconfiámos da passagem porque num contacto anterior com a Associação Agostinho da Silva nos tinham dito que Agostinho nunca tinha encontrado Pessoa. Por isso procurámos falar com Fernando DaCosta, o que conseguimos ontem. DaCosta foi de uma grande simpatia e confirmou-nos que tudo o que escreveu é real e lhe foi comunicado directamente por Agostinho. Reforçou que Agostinho dizia não conhecer Pessoa para que não o incomodassem com as tais "coscuvilhices", mas que de facto o tinha conhecido em Dezembro de 34 e que Pessoa até lhe queria desenhar a carta astrológica, tendo Agostinho recusado por ser ainda muito racional (DaCosta disse que Agostinho só depois da ida para o Brasil passaria a ser "um pouco menos racional"). Seja como for, esse ano de convívio com Pessoa terá dado a Agostinho o extraordinário insight que depois ele converteu nessa obra Pessoana de excepção (que usamos para o nome do nosso blog) que é "Um Fernando Pessoa".

Claro que, partindo do princípio que Agostinho realmente conheceu e conviveu com Pessoa, resta saber como Agostinho interpretou o que ouviu do poeta. Seria este arrependimento, um arrependimento de arte (e com medo da memória futura), ou um verdadeiro arrependimento de ter fingido completamente? Isso, provavelmente, ficará sempre sem resposta, mas abre novas janelas de interpretação das cartas de amor e de um novo heterónimo: "Fernando" apaixonado.