sexta-feira, novembro 28, 2008

Dia 4 do Congresso Internacional Fernando Pessoa



O I Congresso Internacional Fernando Pessoa chegou hoje ao fim, e estas são as minhas impressões do último dia do que foi uma experiência muito interessante (e por vezes esgotante):

Apresentação da Revista Portuguese Studies

Fora do programa entregue inicialmente, foi apresentada a Portuguese Studies dedicada a Pessoa.

Ressonâncias de Pessoa

Mesa com Perfecto Cuadrado, Richard Zenith e José Barreto. Das 3 apresentações, claramente a de José Barreto foi a melhor, tocando o tema de Pessoa e Salazar com profundidade mas surpreendente clareza. José Barreto pode não ser o mais empático dos oradores, mas parece "in the zone" quando começa a falar. Conseguiu manter a plateia interessada, com um tema que à partida não seria fácil, nem de expor, sobretudo de maneira simples e sintética.

Zenith desiludiu-me um pouco, sobretudo depois da leitura de alguns dos seus artigos. Não foi capaz de uma fluida apresentação de ideias. O mesmo se passou com Cuadrado.

Nota breve para uma pequena "polémica" entre Zenith e Pizarro sobre a edição da obra do Barão de Teive. Pizarro criticou a organização da mesma feita por Zenith e este retorquiu defendendo-se. Ficou no ar um "cheirinho" do que se passa (e passou) em maior escala entre os vários editores de Pessoa (por ex. entre a Equipa Pessoa e Teresa Rita Lopes).

As Vidas de Fernando Pessoa

José Blanco e José Gil, dois grandes nomes, prometiam muito. E em certa medida "entregaram".

José Blanco falou de um interessante tema: migração de poemas e temas entre os heterónimos e Bernardo Soares. Deu bastantes exemplos e a conferência foi extremamente original e completa, ainda mais se considerarmos que Blanco não é um académico com formação em literatura.

Já Gil pegou num tema "delicado" - a relação Pessoa/Ophélia, e conseguiu fugir a uma análise mais terra-a-terra, que seria a análise mais difícil e óbvia. O seu lado de filósofo falou mais alto e transformou as cartas de amor no que ele chamou de "Máquina de amor Pessoa/Ophélia". Gil é daqueles Pessoanos um pouco à frente das tendências, por isso não me cabe analisar a sua apresentação, mas fica a sensação clara que ele percebeu uma certa artificialidade nas cartas.

Isso foi confirmado com a leitura de um testemunho inédito, que para mim se tornou o momento mais chocante de todo o Congresso. Foi lida uma passagem do novo livro de Fernando DaCosta, "Os Mal Amados", que fala de uma conversa tida com Agostinho da Silva, em que lhe foi revelado basicamente o seguinte:

Pessoa terá dito a Agostinho que se arrependia de ter escrito as cartas de amor. Disse-lhe que ele tinha basicamente inventado uma personagem para interagir com Ophélia - um banal empregado de escritório que se apaixonava por uma colega, retratando um amor simples e rude. Era uma brincadeira, uma invenção, que foi levada longe demais. As cartas de amor, verdadeiramente ridículas, literariamente ridículas... Só depois de ver o que estava a fazer, a "monstruosidade" do que estava a fazer, é que Pessoa quebra definitivamente - fala da "outra lei", sai do personagem.

Duas coisas me espantam neste "testemunho":

1. Espanta-me que Pessoa tenha sido tão "cândido" sobre tal assunto da sua intimidade.
2. Espanta-me ainda mais que Pessoa tenha falado com Agostinho da Silva. Segundo investigação pessoal, tinha chegado à conclusão que Agostinho nunca tinha estado com Pessoa. Enderecei mesmo um email à Associação Agostinho da Silva com esta exacta dúvida e foi-me indicada (por Renato Epifânio) uma passagem de Agostinho que terá dito o seguinte sobre esta questão:

"Outro dia alguém perguntou se eu conheci o Pessoa. Eu disse: (...) vim para Lisboa no próprio ano em que o Pessoa morreu (...). Eu conheci-o quando uma amiga, ainda hoje viva, me trouxe uma cópia da Ode Marítima (...)" (in "Agostinho da Silva e Vasco Magalhães-Vilhena entrevistados sobre António Sérgio", Horizonte, 2007, p. 27).

Tentaremos nos próximos dias averiguar a "verdade".

Entretanto convido à consulta da biblioteca de imagens que reuni no Flickr, que retratam um pouco todo o período do Congresso.