terça-feira, novembro 25, 2008

Dia 1 do Congresso Internacional Fernando Pessoa



Tive o prazer de assistir hoje ao primeiro dia do I Congresso Internacional Fernando Pessoa. Aqui ficam as minhas impressões sobre as apresentações e organização em geral:

Conferência inaugural por Eduardo Lourenço

O Prof. Lourenço parecia um pouco entediado, sobretudo depois do rol de elogios por parte da Inês Pedrosa, que claramente ele não apreciou. No entanto, após se confessar adoentado e sem força para ler o que tinha previsto ler, lançou-se - a seu tempo - numa grande divagação, à Lourenço, sobre Pessoa e Portugal, que prova bem a sua inteligência e cultura. Foi um bom momento e mereceu amplamente a salva de palmas que quase não se interrompia e que tirou um sorriso a Lourenço.

Inês Pedrosa revelou a intenção de tornar o Congresso um evento bienal. Também disse que as apresentações sairiam brevemente em livro, o que é positivo, sobretudo para quem não pode assistir.

A Biblioteca de Fernando Pessoa: a outra escrita revelada pela marginália

Cardiello iniciou falando das anotações feitas por Pessoa durante os anos em que estudava filosofia. Muito interessante o modo como foi reflectido o medo de Pessoa em se emergir demasiado na filosofia, mas ao mesmo tempo como ela foi para ele - aos 17 anos - uma ferramente valiosa.

Estibeira falou da sua tese sobre a marginália, com imensos dados curiosos. Dos livros de Pessoa, 700 estão anotados, 300 assinados de variadíssimas formas. A autora foi ao pormenor de explicar que tipo de caneta ou lápis ajudava a datar a leitura do livro. Extremamente interessante.

Ferrari e Pizarro falaram das contracapas. Pizarro aproveitou para "picar" a família do poeta, falando no leilão (e tirando uma salva de palmas da plateia). Interessante a perspectiva de saber o que o poeta lia em determinados momentos, por exemplo em Março de 1914 - antes do dia triunfal.

As Vidas de Fernando Pessoa

Valeu certamente só para ver de perto Rita Lopes e Robert Bréchon. A professora não deslumbrou, mas abriu o véu para a biografia que está a escrever (e que promete), falando também das diversas personagens literárias.

Já Bréchon, deslumbrou do alto dos seus 88 anos, com uma conferência em francês absolutamente fascinante e que foi amplamente aplaudida. Soubemos ainda que Bréchon lança em breve "Pessoa, le poete intranquille", sobre o Livro do Desassossego.

Adivinhando, ou não, a "picada" de Jerónimo, a sobrinha do poeta, Manuela Nogueira, não apareceu. Nem nos parece que vá aparecer tão cedo num evento da Casa Fernando Pessoa. É pena, porque no passado nos pareceu alguém com um contributo válido a dar para os estudos pessoanos, mas por outro lado não deixei de ficar contente com a sua ausência.

Pessoa em diálogo com outros "universos"

Mariana de Castro e Patrícia McNeill apresentaram uma visão comparativa, respectivamente tratando de Shakespear e Yeats. Pessoalmente não sou particular fã da visão literária comparativa, achando-a demasiado maçadora sobretudo em conferências. No entanto ambas as apresentações foram bem concebidas e recebidas pela plateia. A conferência sobre Shakespear foi um pouco mais interessante, com a revelação da admiração de Pessoa pelo bardo, sobretudo enquanto "poeta dramático". Admiração que verteu em cerca de 300 fragmentos que continuam inéditos no espólio.

Uma palavra para a organização, que parecia um pouco sem saber o que fazer com os congressistas, variando do demasiado abrupto (Inês Pedrosa quase entrou em discussão com Rita Lopes sobre cortar a palavra daquela se ela demorasse mais de 15 minutos), ao demasiado relaxado (a demora a começar depois do almoço, soube especialmente a amadorismo e falta de respeito por quem esperava).