
Celeste Malpique, psiquiatra especializada em infância e adolescência, aborda num livro sem preconceitos Fernando Pessoa enquanto "paciente".
Tenho que dizer à partida que tenho muitas dúvidas sobre a efectividade de livros "deste género" que analisam a psique baseados apenas no testemunho da obra. Sobretudo porque, como sabemos, muitos escritores escondem mesmo da sua obra o seu intimo ou tendem a exagerar a sua dor em favor da exaltação máxima da mesma.
Mas devo dizer que o livro me agradou sobretudo pela sua profundidade. Não é de fácil leitura (e exige mesmo que o revisitemos), mas é certamente uma tentativa honesta de análise que não poupa o leitor aos rigores dos termos técnicos necessários. Dos quatro ensaios que contem, agradou-me mais o primeiro, porque analisa a infância e princípio da adolescência de Pessoa.
Celeste Malpique pretende de algum modo desconstruir as teorias biográficas "simplistas" (usando palavras da autora), que vêm desde Gaspar Simões e Eduardo Lourenço. Claro que a ausência da mãe e morte do pai explicam muita coisa, mas há - e nisso concordo absolutamente - um processo interior muito mais vasto, de "clivagem", "dissolução do Eu" e "esvaziamento do ser para o não ser". Muito interessante o cruzamento deste conceitos psicanalíticos com conceitos paralelos da filosofia existencialista.
O segundo ensaio, sobre a temática do Não Ser é muito interessante sobretudo por esse cruzamento. O terceiro não me agradou tanto, fala do narcisismo e da sexualidade, mas pareceu-me mais superficial. O quarto ensaio, sobre a dimensão mistica da poesia de Pessoa, pareceu mais deslocado no total da obra.
No fim da leitura (que terá de ser repetida para um total efeito) ficou uma impressão nítida da honestidade desbragada da autora, que mostra a sua experiência e conhecimento no modo corajoso como aborda todos os temas. Mas a mesma pareceu-me desconhecer profundamente a obra e a biografia do poeta. Alguns erros saltam à vista: fala no 2.º prémio atribuído a Pessoa por "Mensagem" e na morte por crise hepática; erros que de certo modo ilustram o facto de Malpique ser uma "forasteira" aos meandros Pessoanos, se bem que seja interessada pelos mesmos. A utilidade do livro é, na minha opinião, de dar mais credibilidade a uma análise "médica" partindo da obra Pessoana - existem outros livros clinicos sobre Pessoa, mas de menor profundidade.
Quanto à teoria subjacente - de que a heteronímia partiria do esvaziamento do Self (do Eu), não me parece nova, e eu tendo a discordar dela. Penso que não houve um real esvaziamento do Self em Pessoa. Os heterónimos serão - suspeito - um jogo de espelhos que não evitam o sofrimento interior do poeta. Ele tenta escapar ao sofrimento através deles, mas não consegue. A compreensão do sofrimento interior de Pessoa é mais vasto e simultâneamente menos evidente do que a sua obra revela. Há uma morte psíquica, é certo, mas não um esvaziamento - nem percebo como ambas poderiam coexistir...
O livro pode ser adquirido online, neste link.
Agradecimentos à Fenda Edições pelo cortês envio de um exemplar para análise.