segunda-feira, junho 30, 2008

Entrevista a Suely Aparecida Zeoula de Miranda



O "Um Fernando Pessoa" tem o prazer de apresentar uma entrevista com a Dr.a Suely Aparecida Zeoula de Miranda, Mestre pela UNESP e autora da interessantíssima tese de mestrado intitulada "O marinheiro na poesia de Fernando Pessoa: porto ou travessia?" em que se coloca a hipótese de este drama estático ter estado na origem da heteronímia Pessoana.

Redigiu em 2006 uma tese de mestrado que aborda uma interessante teoria: que o drama estático 'O Marinheiro' poderia estar relacionado com o próprio fenómeno da heteronímia Pessoana. Pode falar-nos um pouco sobre isso? Como lhe surgiu a ideia e qual é a base da mesma?

Meu "caso de amor" com Fernando Pessoa vem de longa data. Desde muito cedo, sua obra - particularmente seus poemas - exerce sobre mim um fascínio completo e definitivo. E foi através de muitas e atentas leituras que cruzei impressões e informações. Lendo o drama estático "O Marinheiro" reconheci, nas falas das veladoras, trechos parecidos - alguns quase literais - da obra pessoana posterior. Essa instigante descoberta foi a razão de todo o trabalho que desenvolvi depois.

O que a atraiu nesta análise? É o 'drama dentro do drama' como refere no seu trabalho espelhar tão bem o 'drama em gente' que era Fernando Pessoa?

Houve vários pontos de atração. O que me fascinou mais, além de sentir em cada trecho a personalidade multifacetada do poeta, foi talvez sua absoluta humanidade e simplicidade (uma vez mais o paradoxo!!) ao respaldar uma obra no retomar de outra. Voltar e rever pontos para entretecê-los depois é um ato de profunda e, em se tratando de Pessoa, surpreendente humildade.

Reis estaria 'latente' em Pessoa pelo menos desde 1912, segundo relato do próprio Pessoa. Isso não desconstrói um pouco a sua teoria, ou pelo outro lado pode confirmá-la porque Pessoa estaria a construir inconscientemente o seu 'drama', ainda sem nomes próprios para os seus 'personagens'?

O que me parece é que essa afirmação apenas corrobora minha tese. Veja:Ricardo Reis nasce em maio de 1912, "na mente" do poeta. "O Marinheiro" foi escrito em 1913 e a primeira poesia de Ricardo Reis foi escrita em 16 de junho de 1914 (Caeiro e Campos surgem também nesse ano, o primeiro em março, o segundo em junho). Uma coisa é idealizar, outra é fazer surgir concretamente. O que afirmo é que muito de Reis existe na segunda veladora d' "O Marinheiro".

Que interpretação (ou simbolismo) acha entre o drama estático 'O Marinheiro' e a aproximação ou afastamento entre os próprios heterónimos? Há também entre eles essa espécie de 'estranheza próxima' que se sente na peça de teatro?

Como nos heterônimos, existem nas três veladoras características próprias e bem pontuais. O estranhamento, que define a obra como arte e como criação, está presente mesmo na fala da SEGUNDA VELADORA, quase no final da peça: "São realmente três entes diferentes, com vida própria e real.Deus talvez saiba por quê..."

Em continuação da pergunta anterior: disse que o drama não foi desenhado para ser representado. Pode desenvolver essa perspectiva?

Na verdade, o teatro em prosa de Pessoa, como afirmam alguns críticos como Freitas da Costa, mostra "frases que são formalmente poesia pelo ritmo que as caracteriza". Segundo o próprio autor, "um drama não é mais que um romance na sua forma máxima de síntese possível". Nesse contexto, lembrando que só existe realmente representação quando existe um público e que teatro é fala e movimento, o drama estático de Pessoa é muito mais para ser lido que para ser assistido. O fato de que as três veladoras não se movem durante toda a peça, parece, como afirmo em meu trabalho, mostrar a primazia absoluta da palavra, face às outras formas de representação. É preciso considerar, no entanto, o caráter polêmico de tal afirmação.

Pode dizer-nos o que representa para si cada veladora, e o marinheiro?

Acredito que as veladoras do drama representem as figuras embrionárias dos três heterônimos principais: a primeira, de Caeiro; a segunda, de Reis, a terceira de Campos. A donzela morta representaria o Pessoa ele-mesmo, que "morre", como uma semente, para fazer nascer os outros três.

Se a veladora morta for Pessoa, o que dizer do seu sacrificio pela sua arte? Valeu a pena?

Creio que valeu tanto, a ponto de estarmos nós dois aqui, falando do assunto, depois de tanto tempo... Ou, numa instância maior, é preciso entender que, na verdade, não houve "morte", mas uma multiplicação, uma situação quase exponencial: quanto mais se cria, mais se quer criar, mesmo que algo ou alguém precise sacrificar-se a si mesmo, numa "doação criativa", digamos assim. Pessoa-ele mesmo renasce, através dos heterônimos. Em um momento da peça, uma das veladoras diz: "São três a escutar.. Três não...Não sei... Não sei quantas..."

Em que medida o sonho que habita aquele quarto em que elas velam representa a visão do sonho que podemos encontrar também no Livro do Desassossego? Nomeadamente é o 'Marinheiro' um testamento para a incapacidade do sonho ser alguma vez real?

Na verdade, penso que "O Marinheiro" faz a apologia do sonho. A peça conta o sonho de um marinheiro e este, por sua vez, habita o sonho de uma das veladoras.É, em última análise, o sonho dentro do sonho. E resta a certeza, explicitada pela SEGUNDA VELADORA: "[...] De eterno e belo há apenas o sonho".E uma afirmação mais categórica ainda, representada pela pergunta de uma e pela resposta de outra: "Por que é que se morre?"[...] "Talvez por não se sonhar bastante..."

Quanto à intertextualidade futura, não se pode dizer que em vez de ligação, há uma continuidade? Porque não falar em continuidade em vez de dizer que o germen da heteronínima estaria contido neste exercicio teatral?

Creio que respondo a isso no final do meu trabalho, no seguinte trecho: "A obra de Pessoa é um caminho de infinitas paisagens, não um ponto de chegada. É uma viagem interminável, não o porto". Há que se lembrar, também, do título da dissertação: " 'O Marinheiro' na poesia de Fernando Pessoa: porto ou travessia?" Creio ter deixado claro que considero este exercício teatral uma travessia, para novas e fascinantes paisagens.

Se esta obra teve um papel pivot no desenvolvimento do discurso poético Pessoano, é uma das explicações para não encontrarmos mais dramas estáticos completos no espólio? O 'Marinheiro' foi morto como Caeiro, porque desempenhou uma função?

É uma possibilidade interessante. Na verdade, Pessoa escreveu três poemas dramáticos: Na floresta do alheamento, O Marinheiro e Primeiro Fausto. N'O Marinheiro, e apenas nele, aparecem as características do drama estático. Seria uma forma de chamar a atenção para o exercício da palavra? Ou para a ênfase nas características heteronímicas presentes nas três veladoras, já que o que se conhece dos heterônimos são apenas as palavras e seu ritmo? O que se pode afirmar é que O Marinheiro sugere o final como uma continuidade, não como a morte ou a estagnação. Há, segundo uma das veladoras, uma quinta pessoa no quarto, "que estende o braço e nos interrompe, sempre que vamos a sentir"... Portanto, fica a dúvida, o fascínio, o mistério, a cadeia que não se fecha. A travessia, portanto, não a chegada.