sexta-feira, maio 30, 2008

Egoísta Pessoa: Uma Crítica



Tive ontem o prazer de ler com atenção a Revista Egoísta dedicada a Fernando Pessoa, que foi lançada recentemente na Casa Fernando Pessoa. Aqui fica um resumo crítico do conteúdo da mesma, com o resumo de cada artigo/análise:


Apreciação genérica

O arranjo gráfico foi, na minha opinião, muito bem conseguido. A revista é pequena e manuseia-se bem. Apenas um reparo quanto à facilidade de leitura de algumas páginas, devido ao uso de cores escuras de fundo com letra em cores igualmente escuras.

Abertura

A revista abre com algumas fotomontagens, muito bem conseguidas, feitas com objectos pessoais de Pessoa (o BI e a caixa de rapé). Estranhamos apenas que a caixa de rapé tenha fósforos lá dentro...

Introdução (por Mário Assis Ferreira)

Um ensaio pobre (em dimensão, 1 página, e em conteúdo), que não escapou a alguns clichés desnecessários, como o estranhar e o entranhar. Pareceu escrito em cima do joelho, o que é uma pena.

Chuva Oblíqua (ilustrações por Rodrigo Prazeres Saias)

Muito interessantes as ilustrações que acompanhavam porções do poema "Chuva Oblíqua", feitas a tinta da china, sobretudo a segunda que lembra um Pessoa em estilo cartoon a andar na rua sob a chuva intensa. Nesta ilustração passa aquela noção do Pessoa que "andava sobre ar", na descrição de alguns amigos dele.

Fotos intermédias (por Cláudio Garrudo)

De seguida algumas montagens fotográficas com mais objectos pessoais: um dicionário, o queen victoria memorial prize, a carteira da mãe de Pessoa, os seus óculos e um exemplar da Orpheu. Ao mesmo estilo das montagens iniciais, com muito bom gosto e bem conseguidas.

Projecto de uma dramaturgia (por António M. Feijó)

Num texto que aparentemente serviu de base ao projecto teatral Turismo Infinito, o qual já revimos aqui, este autor desenvolve as ideias que serviram de base à encenação da peça. Achei o texto muito maçador e demasiado fechado sobre si mesmo, sobretudo depois de ter visto a peça de teatro, que não me pareceu (nem pouco mais ou menos) tão complexa como aparentemente era em papel... o elogio descarado no final: "Este é o projecto dramatúrgico inicial do espectáculo Turismo Infinito, magistralmente encenado por Ricardo Pais", também não caiu bem ao leitor.

Da vida dos sonhos ao sonho da vida (por Fernando Pinto do Amaral)

Este ensaio é mais extenso e em princípio parecia interessante. Mas no final da leitura do mesmo não ficou uma impressão duradoura, que pudesse resumir essa leitura em ideias concretas. Se o autor quis transmitir a ideia de sonho em Pessoa, conseguiu em parte, mas apenas na maneira etérea como construiu a sua análise, se é que existiu na realidade uma análise qualquer aqui.

A Carta da Corcunda para o Serralheiro (texto de Fernando Pessoa)

Transcrição completa deste texto extraordinário de Pessoa (que foi um dos melhores momentos da peça Turismo Infinito).

A Carta do Serralheiro para a Corcunda (por Inês Pedrosa)

Em resposta à carta da Corcunda (que não era suposto ter uma resposta), Inês Pedrosa escreveu uma resposta. Claro que só podia falhar, e como esperado falhou. O texto é pobre e vazio de sentido (para quê responder a uma carta de uma morta que não queria uma resposta?). Além disso Pedrosa tentou caracterizar o Serralheiro aparentemente como alguém de classe média-alta, arrependido por ter uma amante, o que em si mesmo tem o seu quê de cómico...

Pessoa tradutor de Óscar Wilde (por Richard Zenith)

Um excelente artigo de Zenith - o crítico maldito - que já nos habituou a bons artigos de análise sobre Pessoa. Ele escreve claro e com opiniões, o que é raro entre os Pessoanos, mas alia ainda a isso um conhecimento profundo da obra de Pessoa (conhecimento que se estende naturalmente à natureza comparativa dessa mesma obra). Um ensaio que fica para futura referência da crítica Pessoana e com um pormenor curioso - Zenith consultou o meu site para as referências bibliográficas, o que me deixou extremamente contente!

Quatro Poemas em Prosa de Óscar Wilde (tradução de Fernando Pessoa)

Zenith acrescenta 4 inéditos preciosos - traduções de Wilde por Pessoa.

Imagens da Biblioteca Pessoal de Pessoa por Pizarro e Ferrari

Como já tivemos oportunidade de dizer, Jerónimo Pizarro e Patrício Ferrari estão a digitalizar a biblioteca pessoal de Fernando Pessoa. Na revista vêm imagens inéditas de alguns livros, profusamente anotados por Pessoa. Um olhar intímo muito interessante.

A hora dos fantasmas (por António Tabucchi)

Antes do lançamento pensávamos que a colaboração de Tabucchi seria inédita. Mas não, é apenas uma transcrição de parte do texto "Os últimos três dias de Fernando Pessoa", já publicado em livro. O texto, aliás, é bastante pobre e não entusiasma...

O Falso Virgem (por Teresa Rita Lopes)

A especialista em Pessoa faz um ensaio muito interessante sobre a sexualidade de Fernando Pessoa, sem no entanto concretizar muito as suas ideias - porque parece que tem um livro a sair sobre o assunto... lamentamos o facto, mas fica uma boa análise, a roçar o erótico (fascinantes os pormenores sobre Pessoa planear a circuncisão, ou sobre a intensão de ele perder a virgindade com Ophélia). Ficámos apenas um pouco chocados com o facto de se começar um artigo a chamar de "abominável" o livro "Virgem Negra" de Cesarinny. Certamente que é falta de chá, mas também falta de sensibilidade e bom humor...

Albúm (por Daniel Blaufuks)

A revista (quase) termina em beleza, com um trabalho fotográfico de uma das promessas da fotografia nacional. Daniel passou pelos lugares de Pessoa, mas ficou com impressões fotográficas originais dos mesmos. Vale a pena ver, pela novidade e sinceridade.

Nessa noite (por Hélia Correia)

Uma história algo estranha de Hélia Correia, que me pareceu desligada de tudo e incompreensível.

Estudos (por Alexandre Farto)

Estudos de pinturas que vão estar instaladas na sede da sociedade de advogados que ocupa a casa onde nasceu Pessoa. Pinturas muito interessantes.

"Acordos" e "Uma paisagem da Holanda" (por Nuno Júdice)

A revista termina com dois poemas de Júdice, sobre Pessoa. Trata-se de um poeta consagrado, com diversos prémios nacionais. Mas "Acordos" é um poema no mínimo sofrível, em verso branco, desconchavado e com um falso sentido de modernidade. "Uma paisagem da Holanda" é mais nonsense, a roçar um neo-surrealismo e por isso ganha alguma piada, mas mesmo assim nada de assinalável ao nível da originalidade.

Agradecimento especial a Cláudio Garrudo, do Atelier 004 pelo envio do PDF integral da revista para crítica.